segunda-feira, 17 de agosto de 2015

"Sense8" faz pensar



Parabéns aos irmãos Andy e Lana Wachowski e J. Michael Straczynski pela criação e produção de Sense8. É uma série original, ousada e “cutuca” o espectador porque mexe com várias questões sociais, pessoais e familiares do mundo contemporâneo, sem ser piegas, sem ser chata moralista, com uma boa dose de ação, emoção, humor e reflexão. A trama reside nas relações interpessoais e no sentimento humano compartilhado, entrelaçando as histórias de oito personagens espalhados em oito cidades ao redor do mundo, desenhando um cenário interessante e multiculturalista. Acredito que a maior contribuição dessa série aos espectadores, além de entretenimento, é a capacidade que ela tem de nos fazer pensar.


- "Estou perdendo a cabeça."
- "Não, ela está apenas se expandindo."


terça-feira, 4 de agosto de 2015

MADEEEEEIRAA!



Estamos vivendo um tempo particularmente muito diferente do que já vivemos. Eu vou partir deste princípio para defender meu ponto de vista. Posso concordar que serei radical em algumas colocações, mas convido você a debater comigo este meu ponto de vista e constatar que a afirmação seguinte faz bastante sentido. Hoje nós perdemos a noção de futuro, e nós não sabemos o que fazer!

Mais do que qualquer outra época, o futuro tem se diluído gradativamente. Sim, falo com a propriedade de alguém de 27 anos, que apesar da pouca idade vê diferenças muito significativas nas últimas décadas. Algumas delas então. Quando criança, por volta dos meus sete anos de idade, me lembro que era bastante comum os adultos ao meu redor me perguntarem qual era o meu plano de vida, qual era o meu projeto para o futuro. Observava nos mais velhos, tanto de minha família como da vizinhança onde morava, uma motivação a criar uma carreira profissional; observava que eles construíam suas vidas muitas vezes trabalhando para uma única empresa até. Na escola, nós tínhamos uma preocupação grande em estudar, em adquirir conhecimentos que nos garantissem uma melhor condição de vida no futuro; eu me lembro que estudar era muito importante na construção de um futuro melhor. Os relacionamentos também eram mais duradouros, mais sólidos, assim como me pareciam mais importantes, as pessoas se esforçavam mais para manter laços de amizade, de namoro, de casamento.

E por que isso tudo foi importante? Do meu ponto de vista acredito que isso sempre será importante para a manutenção dessa sociedade que criamos. Uma sociedade baseada – ainda – por instituições verticais, com poderes centralizados, centralizadores, que só faz sentido enquanto temos uma noção de futuro, enquanto temos a crença da existência de um amanhã. Enquanto acreditamos que no futuro as coisas serão (ou poderão) ser melhores, justificamos qualquer investimento nosso de energia e tempo. “Vou estudar muito hoje, para obter um trabalho melhor amanhã”. “Vou dedicar minha energia e meu tempo extra neste trabalho, para construir uma carreira nesta empresa”. “Vou sacrificar desejos e vontades efêmeras, para realizar um propósito futuro”. “Para se construir uma vida leva-se tempo, então para gerir bem um país também”. A nossa sociedade, da forma como ela foi estruturada, precisa então da crença de um futuro, precisa que as pessoas invistam sua energia e seu tempo no presente objetivamente, concentradamente, em alvos únicos para que ela possa se manter.

O problema é que a situação mudou radicalmente. E tem mudado rapidamente. A realidade hoje é tão assustadora, tão precária e necessita de medidas tão urgentes que temos uma sensação de morte eminente. Hoje nós não pensamos no futuro porque em primeiro lugar nós o tememos! O cenário atual não nos garante no futuro nem sequer a vida, quiçá uma condição melhor. Pedir a um jovem que sacrifique seu presente para construir o seu futuro é motivo de piada. Que futuro? Aquecimento global; catástrofes naturais; escassez; roubos de dinheiro público, trapaças políticas; inflação, instabilidade econômica, desemprego crescente; aumento de criminalidade, de violência, de mortes? Não... o futuro dele é incerto. É inexistente. Assim como o seu e o meu. Na idade média, o homem abriu mão do seu presente em nome do Paraíso. Na modernidade, o homem abriu mão do seu presente em nome da Tecnologia, de um Futuro melhor. Hoje nós não abrimos mão de nada! Penso que se Nietzsche nos visse hoje repensaria alguns conceitos de sua filosofia. Ele veria que o niilismo talvez tenha sido modificado; pela primeira vez na história o homem não abre mão do seu presente em nome de nada. Hoje ele vive a vida, desejando curtir e gozar cada instante. Impulsivamente. Despreocupadamente. Unicamente...

Se nem tanto ao céu, nem tanto à terra. Acredito que esse nosso temor, essa nossa descrença no futuro, é o que nos tem feito viver “melhor” (bem entre aspas) o presente. Hoje pelo menos estamos mais interessados na máxima “carpe diem” do poeta Horácio, “aproveite o dia”. É o que queremos agora. Ninguém quer se sacrificar mais em nome de nada. Vemos evasão na escola. Rotatividade de pessoal nas empresas. Descrença no poder público. Mas lembra que eu disse logo acima que ainda vivemos numa sociedade com instituições verticais e centralizadoras que necessitam de uma noção de futuro para se manterem? Eis aí o nosso problema. E ninguém está sabendo o que fazer. O Estado, o setor privado, a escola, a família, a igreja, todas as intuições estão falindo - nos moldes antigos. Então como gerir uma sociedade que foi estruturada através da crença de um amanhã, quando a realidade atual tem nos tomado essa crença?

Eu só vejo dois caminhos. Ou as instituições reconstroem a noção de futuro no consciente coletivo, fazendo com que as pessoas acreditem novamente no amanhã e assim – quem sabe – voltem a investir energia e tempo para o futuro. Alternativa essa que acho impossível de acontecer. Ou as instituições se transformem completamente a partir de suas estruturas, horizontalizando-se. E quando digo isso é alterar radicalmente mesmo a forma como educamos, como trabalhamos, como nos relacionamos, como exercemos nossa fé. Abrindo a novos formatos, mais flexíveis, mais humanos, mais informais, menos programados e mais momentâneos e circunstanciais. Derrubando conceitos embutidos como projeto de vida, plano de carreira, planejamentos a longo prazo. Para isso todas as instituições precisarão rever seus paradigmas sem preconceito, sem julgamento, com maior aceitação à diferença, à pluralidade, à diversidade. Se não derrubarmos e reconstruirmos o nosso sistema de sociedade agora, será muito difícil determinadas instituições sobreviverem amanhã!



domingo, 5 de julho de 2015

O lado de dentro



Prefiro o sonho à ilusão; no sonho sabe-se que temos os olhos fechados; na ilusão julgamos tê-los abertos.” (Marie de Beausacq)


O universo é infinitamente grande para fora assim como é infinitamente grande para dentro. Uma transformação aplicada no lado externo pode ser também aplicada no lado interno. Existem benefícios na concentração de energia para ambos os caminhos. Não entendo porque passamos toda a vida praticamente voltados apenas ao lado de fora.

Somos criados para nos tornar exímios transformadores do externo, em detrimento de conquistas internas. Um dia saímos de uma barriga. Um dia saímos das cavernas. Saímos do chão, deste planeta, a quem diga que saímos de nosso corpo, da realidade, da vida uns dos outros, que nos acostumamos com uma única direção. “Para fora”. Poucos visam a direção contrária. O mergulhar em si mesmo. O se autoconhecer. O lapidar-se.

Quanto mais se avançou a sociedade mais fomos estimulados a olhar para o que estava fora de nós e transformar o entorno. E nos tornamos bons nisso. Construímos pirâmides. Arranha céus. Aviões. Foguetes. Naves espaciais. Tecnologias das mais variadas. Aprendemos na escola a ler e a escrever antes de conhecer qual o impacto de cada palavra. Aprendemos a conversar antes de ouvir o som daquilo que queremos dizer. Pensamos no que estamos sentindo mas raramente sentimos aquilo que pensamos. Abrimos nossas vidas para outras pessoas adentrarem, nos amarem; para estranhos nos conhecerem. Enquanto o universo expande porta à fora no interior tudo permanece praticamente intacto por nós. Inabitado. Somos desproporcionalmente realizadores internamente.

Na sociedade atual todos estão sempre se movendo, conversando, gesticulando, fazendo barulho, mas nunca nos encontramos em silêncio. Mas isso parece proposital já que o silêncio incita ao que não estamos acostumados: olhar para dentro. E também parece que não queremos isso. Não queremos ouvir os nossos pensamentos. Mergulhar em nossas emoções. Entender os nossos medos. Tocar em certas feridas. Refletir atos ou decisões. Não olhamos para o nosso interior porque talvez temamos a nós mesmos mais do que qualquer coisa neste mundo. E no fundo este receio venha de um único medo: a finitude. O medo da morte. Corremos tanto, construímos tanto, acumulamos tanto, porque tudo o que mais queremos é encontrar um ponto fixo, uma saída para trapacear a morte. Alcançar um estágio permanente, imutável, que nos permita esquecer a efemeridade que é a vida.

Não fazer mais parte apenas dos transformadores externos é uma escolha bem pessoal. Por vezes é necessário abrir mão de algumas ilusões. Outras vezes dói bastante. Mas acredito que quando decidimos parar alguns instantes, nos silenciar, refletir, olhar para dentro e executar revoluções internas, passamos a nos conhecer mais. A viver melhor a vida. A aceitar a morte. Descobrimos um novo espaço. Infinitamente grande. Apenas esperando para ser explorado...


Para quê olhar para os crepúsculos se tenho em mim milhares de crepúsculos diversos - alguns dos quais que o não são - e se, além de os olhar dentro de mim, eu próprio os sou, por dentro?” 
(Fernando Pessoa)



 

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Bons sonhos




Há dias em que me sinto meio assim sei lá. Não sei explicar, e pra ser sincero nem quero tentar. Quero escrever a essa hora porque simplesmente é melhor do que sufocar isso aqui tentando dormir, e sonhar que tive pesadelos...

Há momentos na vida em que não sinto nada, absolutamente nada. Sou tragado pra um mundo totalmente vazio. Tão vazio como me sinto agora. Como se eu me jogasse de um penhasco bem alto sem paraquedas só pra sentir algo antes de morrer. Quando me sinto assim é exatamente isso o que tenho vontade de fazer: provocar-me algo. Queimar-me com certas lembranças doloridas. Sufocar devidos sentimentos insanos. Abafar um grito de liberdade que ecoa paredes a fora deste quarto. E enfim me entorpecer...

Eu sei que isso está parecendo melancólico e um tanto trágico, mas é toda verdade que sou capaz de (d)escrever neste momento. Me desculpe. Me imagine com uma garrafa de uísque, enchendo a cara, podendo sentir o cheiro da fumaça do meu próprio cigarro. É exatamente assim que me veria. É minha alma que deve estar assim neste momento. Sedenta de insônia. Mordaz. Feroz, e ao mesmo tempo silenciosa fitando-me como um abutre à espera de algo.

Puxo um último trago e apago o cigarro com se estivesse finalizando um ritual macabro de automutilação, e regeneração. Auto-ajuda-destrutiva?! Adoro isso, pode crer. Amanhã devo despertar melhor, tenha certeza disso! Provavelmente com alguma ressaca existencial - já ouviu essa? Tomarei um banho imaginando que a água leva embora todo pecado consumido, e me prepara para um novo dia. É tudo o que temos, um novo dia não é. Mas tem dias em que estamos cansados de tudo. E dá uma vontade de provocar uma explosão apenas pra iluminar o tédio em que nos encontramos. Ou correr pra bem longe, fingindo que conseguiremos fugir de nós mesmos por alguns instantes.

Levanto e vou ao banheiro mal podendo com o peso dos pensamentos. Me olho no espelho com a esperança de não conseguir me ver; queria que outro estivesse ali. Quem sabe uma versão melhorada dele. Que pena, tenho a impressão que o mundo não acabou, parece que o veneno ainda não surtiu efeito. Sento na cama e decido escrever - com uma sede incrível de vomitar tudo (exatamente tudo) que me vem à mente. Para me exorcizar. Acho que estou conseguindo, não acha? Sinto lágrimas rolarem mas não sou capaz de registrá-las. Como diz a música, "let it be"...

Olho para o lado a procura do resto da garrafa, quero um último trago antes de apagar. De repente percebo que a garrafa nunca existiu de fato. E eu nunca fumei de verdade. Não sei brincar com bombas. E tudo não passou de um daqueles sonhos que temos acordados antes de dormir... Agora acho que descansarei.


sábado, 23 de maio de 2015

SUBVERSIVO



Abrigo duas características distintas entre si. Enfrento as circunstâncias adversas e questiono os cenários, as vezes com altivez e bravura até. Mas também sei conter firmemente um impulso de discordar, quando acredito que a ordem precisa do respeito necessário para se prevalecer desta forma, na paz. Nesse segundo caso, note que associo conceitos como ordem, concordância e paz; embora na prática muitas vezes posso desconsiderar isso. Nessa dança de contrários, até me confundo e algumas vezes sofro para descobrir qual Jonas deve ganhar forma, qual Jonas quero que tome a frente de uma situação. As vezes acontece de a própria situação acabar escolhendo por mim... Ouvi a um tempo atrás que sou o que se pode chamar de subversivo. Não sabia o significado dessa palavra e fui consultar. Ao descobrir fiquei curioso com essa denominação. Embora concordo em vários aspectos...

Quando mais jovem, brigava ferrenhamente com o meu pai porque infelizmente eu não era o filho perfeito que ele tanto sonhava. Ser um filho passivo e aceitar o que ele ensinava como tudo o que se poderia, e deveria, aprender na vida, não deu muito certo. Isso me irritava a beça, de uma maneira que você não faz ideia. Por essa razão eu fui muito rebelde e desobediente. Eu retrucava as suas verdades, pois aquilo engasgado na minha garganta, que doía no meu peito e fazia meu corpo ferver de raiva também merecia ser exposto. Afinal, por que apenas ele podia gritar?! Se eu era o culpado (como sempre me sentia ser), eu tinha de me defender também; ou não é isso o que a justiça prega? Infelizmente nossos debates sempre desembocaram em brigas intensas, porque apesar de meu pai ter sido bom em alguns aspectos, ele foi também fechado demais em suas convicções; quase um ditador. E eu nunca suportei pessoas que sabem facilmente gritar suas verdades mas não tem coragem o suficiente de ouvir o que eu tenho a dizer. Penso que é preciso as vezes mais coragem para ouvir certas coisas do que falar.

Na fase escolar tive problemas com professores que se colocaram à frente da sala como seres imponentes; intocáveis; fontes únicas de sabedoria. Só eles podiam ter a palavra final. Só eles podiam saber todos os assuntos. Apenas eles decidiam qualquer coisa na sala, sem ter de ouvir a opinião do resto da classe; se éramos ali a maioria, mesmo hierarquicamente inferiores naquela situação, deveríamos ser respeitados e ter as nossas questões levadas em consideração também. Era eu lembrar disso que eu levantava a mão para questionar e a briga começava. Infelizmente aqueles que se sustentam em títulos nem sempre suportam perguntas; é permitido tudo, menos questionar a autoridade. Para mim as pessoas grandes estão abertas para colocar em xeque seus próprios conceitos se for necessário; um homem que não se auto-reavalia, nem se permite contrariar, é um tolo maior; e se este tiver poder nas mãos, torna-se ainda muito perigoso.

O tempo passou, vivi algumas experiências e sofri bastante, por isso mudei minha “abordagem”, por assim dizer. Hoje quando me deparo com uma situação estressante ao invés de sacar as armas, me desarmo. Como um radar, sei quando algo está vindo ao meu encontro. Antecipo a situação e consigo administra-la e me administrar melhor. Controlo a minha respiração. Conto até dez. Quando num impasse com outra pessoa, presto atenção ao que estou falando, a como estou falando, assim como penso no que gostaria de dizer. Procuro não incitar mais a discussão e mantenho o foco na conciliação. Mas também presto bastante atenção ao quanto a outra parte está aberta, para assim não trair aquilo em que acredito. E na pior das circunstâncias o aviso é único: saia de discussão. Antes de perder completamente o controle é melhor parar. (Eu tento parar) Prefiro sair como o perdedor ou como o errado se for o caso, mas já não pago para ver até onde a discussão vai dar. Nunca acaba bem.

Segurar um impulso é muito mais difícil do que suportar as consequências dele. Essa tarefa chega a ser física até. E saber discernir entre os dois polos é estágio para os mais evoluídos: quando conter determinadas emoções e quando se deixar agir. Para quem gosta de argumentar como eu, este é um bom desafio. Eu não quero com este post dizer que o correto seja um ou outro absolutamente, pois acredito que todo extremo pode ser perigoso. A mim me parece que o caminho do meio talvez seja a melhor pedida. Um caminho que contemple você saber ouvir o ponto de vista do outro, mas também se fazer respeitar o seu ponto de vista, sem para isso ter que impôr nada; as pessoas não mudam porque impomos as coisas, elas mudam por si só, quando querem - ou conseguem. Acho importante imprimirmos nossa opinião no mundo, mas brigar por isso... apenas em raras exceções.

Finalizo com dois conselhos. Primeiro. Tudo é energia. Toda energia procura vazão. Quando ela não é exteriorizada, é interiorizada, ou seja, se você não explodiu, certamente você implodiu. Então, se você não canalizar de alguma forma essa energia retesada em você, ao longo do tempo ela vai te adoecer de alguma forma, pode acreditar. Segundo. Eu sei que é difícil saber o que fazer (conter ou agir) quando o sangue realmente ferve. Nesse momento a gente quase não pensa, nem em nós, nem nas outras pessoas. Mas, para desencargo de consciência, eu sempre refleti assim: se após o ocorrido, já com a cabeça fria, eu não me arrepender de uma atitude tomada, sei que fiz a melhor escolha, dentro daquilo que me foi possível escolher. Aprendo com isso, e sigo em frente.

terça-feira, 21 de abril de 2015

Parabéns! Ou não


Esse mês o blog está comemorando sete anos. Nessa data gosto de refletir os motivos que me levaram a criá-lo. Ou a continuar com ele. Me lembro de um determinado momento: quando resolvi compartilhá-lo pela primeira vez...

Antes disso eu era o único que lia o que escrevia. E isso bastava para mim. Os textos eram escritos em folhas brancas de cadernos velhos, secretamente guardados. As vezes apenas pensamentos caóticos; sentimentos de raiva. Outras vezes apenas para expor uma sensação de incompreensão pelos outros. Vindo à internet, tentei ao máximo manter o sigilo. Dificultei a sua localização criando um link bem incomum (www.ttibet.blogspot.com.br), o que também não facilitaria a memorização por quem o encontrasse por acaso. Isso reforçaria o anonimato, haja vista que aqui não havia fotos minhas nem meu próprio nome. Me intitulava "Tibet" apenas. Curiosamente, esse também era um lugar que queria conhecer.

No começo sentia muita fragilidade em escrever aqui. As vezes parecia medo até. Achava que o que escrevia era verdadeiro demais para ser exposto, e como no cotidiano me sentia um perfeito camaleão não queria que minha face original se apresentasse ao mundo; ostentava outras bem diferentes na época... Isso explica porque gostava de um seriado chamado "The Pretender", em que o protagonista tinha a capacidade de integrar qualquer tipo de personalidade, adotando diversas identidades. Me orgulhava dessa reserva em manter só para mim a melhor parte de mim mesmo. Isso me dava a sensação de superioridade perante o mundo. Aos outros eu podia ser qualquer um que me valesse a pena. Para me esquivar de brigas. Para estar em evidência. Para ser aceito. Para me sentir melhor... Me divertia em algumas proezas, embora no fundo não gostasse de agir dessa forma; no fundo sabia que não estava  mentindo apenas às pessoas mas também a mim mesmo. Havia uma vontade latente de ser um ser humano melhor. E descobrir que ser humano era esse... O blog deveria me ajudar nisso.

Um dia abri as portas e convidei os primeiros leitores para esse espaço. Me lembro da sensação que experimentei com os elogios. O sabor das críticas. As aspirações que tive e tenho desde então. Me senti respeitado. Admirado até. E desta vez era pelo que realmente era. Ou pensava que era. Embora meu objetivo fosse apenas me autoconhecer, busquei mesmo através desse blog descrever essa jornada. A jornada de um individualista que tinha o interesse genuíno de se tornar uma pessoa melhor. Aos poucos fui aperfeiçoando a gramática. Construindo textos mais detalhados. Precisos. Sempre elaborando o raciocínio com maior clareza e sinceridade. Quanto mais o tempo passava mais me sentia honesto comigo mesmo, e já não tinha mais medo de expor o que eu era; de falar o que pensava; de me exercer como desejasse. A partir daí foi um passo para compartilhá-lo nas redes sociais.

Desde então busco escrever sobre temas variados, publico vídeos, músicas e obras que acho interessantes; tudo para atrair o leitor. Quero o fazer pensar. Questionar sua vida. Reavaliar também a(s) sua(s) identidade(s). Hoje busco a verdade acima de tudo e afirmo que sou cem por cento sincero aqui. Ou pelo menos tento ser. Por essa razão devo confessar a você uma coisa. Acredito que esse blog acabou se tornando para mim o que um dia um lago foi para Narciso, na mitologia. Reflexo do ego. Já não sou capaz de distinguir o limite entre expor minhas ideias para auxiliar e expor minhas ideias para me envaidecer. Desconfio que as vezes escrevo apenas para mim mesmo, e que leio o que escrevi como alguém que verifica os próprios traços num espelho. Faço sem perceber; como um animal cego que lambe a própria calda achando ser sua cria.

Caberá a você então, leitor, a difícil tarefa de discernir até onde vai aproveitar sinceramente esse espaço. Ou censurar as razões dele.


   - Blog, blog meu, existe alguém mais interessante do que eu?




"Foi o orgulho que transformou anjos em demônios, mas é a humildade que faz de homens anjos." (Santo Agostinho)

segunda-feira, 30 de março de 2015

Reflexões de um prisioneiro


Já vou advertindo que este post ficou grande! Tenha paciência e mantenha a mente aberta que eu te garanto que irá entender onde quero chegar. Conclusões após um período de clausura.


Há quarenta dias me propus o seguinte desafio: eu deveria ficar todo esse período sem utilizar a internet – de nenhuma forma –, não tomar café e não comer carnes. Afirmo, agora, que foi fácil. No começo pensei bem diferente. Confesso que nos primeiros dias eu sentia tanta dor de cabeça, dores no corpo inteiro; eu sentia tanta fraqueza que parecia que eu me arrastava pois o corpo pesava demais. E o humor? Um campo minado! Mas com o passar dos dias as dores foram cessando e o meu corpo foi dando sinais de estar se acostumando a sua nova fase. Os meus sentidos pareciam estar mais aguçados. Minha percepção parecia melhor. Me sentia mais inspirado. Convivia com uma estranha sensação de leveza, como se o corpo estivesse se desintoxicando de alguma coisa. Pelo menos por um tempo foi assim... Hoje me sinto realmente mais “limpo” – se é que posso expressar com essa palavra –. Mas não necessariamente pela ausência de internet, de café ou de carnes...

Esse desafio, que encarei como um sacrifício, tinha dois objetivos principais. O primeiro era o fato de eu estar incomodado – e já fazia um tempo – com alguns hábitos que traiçoeiramente foram se transformando em vícios na minha vida, me tomando minha liberdade – ou a crença que eu tinha disso –. Estava consumindo grandes quantidades de carnes e café diariamente e sentia dores de cabeça quando não consumia. Passava tanto tempo na internet que sentia falta enquanto estava desconectado; ficava preocupado com mensagens, recados, notícias que chegassem, consultando hora após hora o celular e desenvolvendo uma paranóia de poder estar constantemente perdendo alguma coisa. Garanto que era bem similar ao comportamento de um viciado. E isso era ridículo! Não entendia esse exagero. Eu sabia que eu poderia perfeitamente viver sem estar conectado à internet o tempo todo, ou tomando café toda hora ou comendo carnes diariamente. E eu estava disposto a me provar isso! O segundo objetivo desse desafio foi me renovar espiritualmente falando. Pedi ao Universo, através desse sacrifício, paz interior, elevação espiritual, porque me sentia estranhamente escravizado à matéria, por vezes esquecendo-me de valores transcendentais que sempre acreditei serem importantes. Eu queria me libertar um pouco. Buscava uma “tal” liberdade de algo que me prendia, e que eu não sabia exatamente o que era.

Esse período de “abstinência” coincidiu com as férias do trabalho, então pude me dedicar a me observar atentamente. O engraçado é que nos últimos dez anos consumi café em grandes quantidades diariamente e hoje não sinto mais nenhuma vontade de tomar. Da mesma forma com as carnes. Não sinto sua falta na minha alimentação. Penso seriamente até em manter uma dieta vegetariana para o resto da vida. A contrapartida, eu que não sou muito fã de TV e de doces, passei a comê-los diariamente – exageradamente – nas últimas semanas, enquanto assistia a seriados. Notei então que ao nos desvincularmos de certos vícios, sem que percebamos, as vezes começamos processos que vão culminando em novos vícios tão nocivos quanto os anteriores. É um paradoxo mesmo. Mais paradoxal ainda foi o receio que senti ao retornar hoje à internet, mesmo sentindo bastante saudade de algumas coisas como este blog por exemplo, e poder postar essas conclusões atingidas. Metaforicamente falando, era como se eu me refugiasse sozinho numa ilha isolada do mundo, ansiando rever algumas pessoas e já temendo retomar o contato com elas por medo de me escravizarem novamente.

Isso me fez pensar o seguinte. Até onde somos realmente livres quanto acreditamos ser? O que significa ser livre? Seria a liberdade um bem alcançável?

Foi então que percebi o que fizera. A grosso modo estava trocando seis por meia dúzia. Transformei a minha fantasiosa Shangri–La – essa minha ilha longe dos antigos vícios –, na minha mais nova prisão. Já estava criando os grilhões através de novos vícios; ficando horas e horas em frente à televisão comendo doces. O engraçado é que pedi ao Universo para me purificar, para me libertar de algo que sentia me prender, mas percebi que a única coisa que me prendera de fato o tempo todo eram as minhas próprias crenças. É isso o que fazemos com nós mesmos. Nos prendemos numa cela e procuramos desesperadamente sair, estando todo o tempo com a chave! Parar de comer carne, parar de tomar café, não acessar a internet, não assistir TV, não comer doces etc. não tem absolutamente nada a ver com liberdade. Liberdade é mudança de perspectiva. Vem de dentro para fora. E no meu caso a questão era pessoal mesmo. Eu nunca gostei de ser dominado por nada, por ninguém, sempre preferi me ver como alguém no controle de mim mesmo, indomável, livre, fugindo sempre daquilo que tentasse me possuir e me deixar com uma sensação de escravidão. Fossem sentimentos, fossem pessoas. E isso cedo ou tarde se tornara meu doce auto-engano, tornando-me carcereiro de minha própria cela. Acredito hoje que a liberdade é criada por nossas crenças. Da mesma forma a escravidão. Nada externo a nós tem poder suficiente para dar ou nos tirar a liberdade. Tomo como exemplo um homem atrás das grades. Ele pode ser mais livre do que você ou eu neste exato momento. O fato dele não poder sair da prisão não significa necessariamente que não seja livre, a única coisa lhe tirada foi o direito de ir e vir, que erroneamente reduzimos a interpretação à liberdade. Mas uma vez que esse cidadão seja capaz de pensar, de sentir, de sonhar, de criar, se ele o quiser as grades jamais o aprisionarão.

E isso nos faz pensar o seguinte também. Quantas pessoas estão neste exato momento, aqui fora, presas por vontade própria sem se dar conta? Posso apostar que não são poucas...

Para finalizar, uma coisa ainda ficava martelando na minha cabeça. Se fugi daquilo que me tornava escravo, por que ainda me sentia um? Se o meu objetivo primordial era a purificação e por isso me distanciei dos antigos vícios, por que criara novos?!

Foi então que veio o xeque-mate: porque talvez Vício e Arte sejam duas faces de uma mesma moeda, que as vezes nos confundem qual é qual. Se a vida é uma intensidade constante de forças violentas e viver é involuntariamente fazer parte desse jogo, o que nos permite sobreviver perpassa a arte ou o vício de qualquer maneira. Acabei percebendo que o que me fez fugir dos antigos vícios, me fez adentrar nos novos e escrever este post: a angústia! Essa natural inquietude que sentimos ao viver a vida, que pode ser tão desconfortante dentro de nós que precisa se converter em arte ou em vício. E qual é a diferença entre os dois? Enquanto um de alguma forma nos liberta, o outro nos escraviza!

Pergunto a você agora: és realmente livre? Continue...


terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

V.I.T.R.I.O.L.


"A claridade é uma justa repartição de sombras e de luz." (Goethe)

Eu sempre fui atraído pelo lado dark da vida. Desde criança sempre vejo mais beleza em personagens que transparecem sentimentos que por vezes não são assim tão ideais como a sociedade gostaria, pois me parecem honestos. Como também sempre me incomodou as pessoas que são “redondas” demais, boas demais, perfeitas demais, com esse excesso de ordem em tudo. Pra mim falta caos aí. Um caos que obviamente está travestido de bondade, de humanidade, de um falso otimismo. Pior do que um otimista fanático, é um falso otimista. Aquele se esforça demais para transparecer o que está transparente que não se sente. Chega a ser cômico, as vezes até assustador...

Acho muito justo assumir uma raiva e um ódio que estejamos sentindo. Pois são verdadeiros! São sentimentos que fazem parte da natureza de qualquer pessoa querendo ela ou não. Fingir que temos apenas sentimentos puros e pensamentos imaculados, além de ser uma grande mentira, não tem razão pra isso. Afinal, a quem queremos agradar? E mentir? Já mentimos a nós mesmos o tempo todo. Não somos santos e nunca seremos. Nem precisamos ser. Até mesmo os santos foram simples homens um dia, e só foram canonizados, pelos outros, por motivos as vezes escusos, após a sua morte. Acho bacana tentarmos diariamente sermos melhores, pessoas com atitudes e pensamentos elevados, mas acredito que isso seja mais uma busca do que um destino. E não pode se transformar em hipocrisia pois perfeitos e puros nunca seremos. Somos perecíveis, fracos e falhos. Amamos tanto quanto odiamos. Rimos da mesma forma que choramos. Desejamos o bem tanto quanto somos capazes de desejar o mal, e sermos pessoas más! O fato é que a gente esconde, se esconde. Dissimulando e maquiando as expressões pra debaixo da moralidade. E nos prestamos a um papel bonito que se encaixe perfeitamente nos padrões estabelecidos, como partes de um rebanho que nunca sabe de onde vem nem pra onde vai.

Isto aqui não é nenhuma apologia à maldade, não estou pregando que devemos ter comportamentos ruins, indignos, apenas afirmo ser pura besteira fingir que eles não existam. Todos nós temos um lado dark que cutuca nossa consciência quase sempre. O fato de não darmos vazão aos sentimentos “menos nobres” com facilidade não faz com que eles não existam. Eles existem e precisam ser encarados. Falo por experiência própria. Acho muito revelador quando reflito sobre o ódio que estou sentindo à determinadas coisas ou pessoas. Como também é bem produtivo quando dialogo com a minha raiva. Aprendi a me aceitar melhor quando fiz as pazes com a minha inveja, com o meu egoísmo, com o meu conformismo, até com o pior de todos, o Orgulho! Estão aqui, sempre estiveram, e não me deixarão nunca, fazem parte de mim e bebo desse veneno diariamente. E pra quem não sabe utilizamos os próprios venenos para elaborar a sua cura. Assim sendo, acredito que precisamos conhecer o inferno para reconhecer o céu.


Eu entendo porque é preferível dizer que gostamos da cor branca ou invés da cor preta. As religiões sempre associaram a luz ao Sagrado. E assim fazem até hoje! Da mesma forma que as sociedades intelectuais sempre associaram a iluminação ao conhecimento. O branco simbolizaria a pureza e a evolução, enquanto o preto o pecado e o mal. É comum escolhermos os caminhos mais claros pois temos fé que estes nos conduzirão à salvação; é comum acharmos que se darmos espaço apenas aos nossos pensamentos mais nobres e somente às atitudes humanitárias cairemos nas graças do Criador. Pra mim isso tudo é baboseira religiosa das piores. Até homens considerados santos, que desenvolveram estigmas, também foram profundamente atormentados. Para falar bem a verdade religião é uma coisa que sempre me incomodou, seja ela qual fosse. O fato de existir um mestre religioso numa posição que detém o poder de pregar, julgar e muitas vezes sentenciar ao mesmo tempo, chega a me dar medo pois é muito poder concentrado numa mão humana. Não vou me estender nisso pois iria longe...

Esse post fala sobre esse lado dark das coisas. Traz à luz uma parte pútrida, fétida da vida, e igualmente rica. Uma parte sombria ignorada da nossa personalidade. Um lado oculto que pode nos ensinar muito. De vez em quando dê mais atenção a essa parte. Dê ouvidos a sua ira. Sinta toda a sua dor. Beba desse ódio. Delicie-se destes venenos. Mergulhe fundo em todos os cantos, até os mais obscuros e labirintosos de si mesmo. Conheça-te a fundo. O Autoconhecimento é uma prática de conhecer a si mesmo, e o nosso universo interior é bastante vasto. Quando retornar à superfície após cada mergulho vai perceber que da mesma forma que o esterco a terra fertiliza, a escuridão a alma santifica!

Visita Interiorem Terrae, Rectificando, Invenies Occultum Lapidem (VITRIOL)
 

domingo, 25 de janeiro de 2015

Uni-vos!


Jogue-me aos lobos, e voltarei liderando a matilha!” (Desconhecido)

Nunca entendi porque a vida exige mais de uns e nunca de outros. Observo que para alguns a vida é sempre mais difícil, como se a vida dessas pessoas tivessem mais provas no caminho, mais obstáculos para serem transpostos, mais cobranças do que o normal. Essas pessoas para mim são mais desafiadas, mais contrariadas, mais exigidas, e sempre terminam mais feridas também. Enquanto as outras, aquelas que costumo dizer que “ficam mais atrás”, são as que se anulam um pouco, aquelas que têm mais medo de avançar livremente, de falar abertamente o que pensam, de agir como desejam, enfim, são pessoas que me parecem “mais poupadas” pela vida pois se intimidam mais. Por um bom tempo julguei isso como sendo muito injusto...

Ficar em casa para realizar determinadas tarefas – e ser cobrado por isso – enquanto meu irmão, mesmo sendo mais velho, levantava da mesa e saía despreocupadamente não me parecia nada justo, e me deixava com uma imensa raiva. Na escola, quando tirei minha primeira – e praticamente única – nota vermelha, li a decepção escancarada nos olhos do professor, e um sonoro “eu não esperava isso de você!” (quer dizer que dos outros era esperado?!) Em todos os lugares onde trabalhei ouvi dos meus chefes que devia dar o exemplo – enquanto os demais nunca eram criticados... Percebi que nos momentos cruciais sempre fui empurrado pela própria vida à arena, quer eu quisesse ou não. E por um bom tempo julguei isso com sendo muito injusto...

Grandes batalhas só são dadas a grandes guerreiros!” (Gandhi) 
 
O interessante é que também observei que uma vez que o mais forte do grupo se levantava e avançava, todos os demais o acompanham e compartilhavam a luta, porque essa parecia ser a vontade do acontecimento. A vida rapidamente se tratava de reunir as forças necessárias aquele impulso liderante. Foi então que concluí que tudo o que a vida desejava é que o mais forte se revelasse e tomasse a iniciativa que o universo conspiraria a seu favor. Essas pessoas teriam mesmo mais responsabilidades, pois viriam também com mais energia, elas seriam dotadas de mais força, elas possuiriam muito mais resistência e determinação do que as demais, e obviamente terminariam sendo mais cobradas por isso.

Passei a refletir sobre aqueles momentos que eu disse que a vida exigira mais de mim e percebi que no fim encontrei toda força necessária – e também apoio – para superá-los. Uma força que nem mesmo conhecia. Uma ajuda de cantos que jamais esperaria. Provações que, se não fosse a vida para me empurrar à batalha, teria me acovardado. E tudo permaneceria na mesma... Nesse aspecto acredito que a natureza seja sim muito justa, pois determinadas circunstâncias precisam ser transformadas para melhor, ou mesmo preservadas, ou alcançadas, e as vezes são transições complicadas, que demandam força, então é requerido do mais forte à liderança, para ser o “start” necessário ao movimento que caberá aos demais dar continuidade. O mais forte do grupo apenas representaria a vontade do acontecimento, ele nunca seria o mais importante, nem mesmo o melhor, ele apenas seria a faísca, a ponta da lança que rasgaria o caminho que os demais precisariam atravessar. Muitas vezes ele mesmo poderá não alcançar esse destino, mas cabe a ele dar o primeiro passo.

Hoje acredito que é justo sim exigir mais força daqueles que têm mais a oferecer. Devemos encarar determinadas situações difíceis como um convite da vida, como uma convocação, e acreditar que antes de se estabelecer qualquer problema em nosso caminho, já existe em nós a força necessária para superá-lo, nós apenas devemos nos lembrar disso e ter coragem de seguir em frente.


"Get up, stand up! Don't give up the fight!"
(Bob Marley)

domingo, 21 de dezembro de 2014

Tudo por um fio



Como de costume venho fazer um post de final de ano. É fim de dezembro, passei o ano todo por diversas experiências e agora é aquele período que dou uma breve olhada para trás, para ver como foi o caminho e o que posso concluir dele. Ao olhar para traz desta vez, a única frase que me vem à mente, e por inúmeras razões: foi por um fio! E penso isso respirando fundo...


Estive o ano todo com uma sensação de correr de uma manada de animais selvagens, em áreas inóspitas, desconhecidas por mim, e contra o tempo ainda; tudo para obter coisas além das minhas condições. Condições físicas. Condições psíquicas. Condições emocionais... Me sentia lidando com coisas inesperadas, novas para mim, onde eu não tinha tempo para me preparar; não existia versão “demo”, “piloto”, “teste”, foi tudo ao vivo, era “se vira, vai ou racha”... Poderia afirmar que praticamente tudo o que ocorreu neste ano me levou ao extremo. Aos picos de humor! E para não haver muitas oscilações tentei manter o controle, ser moderado e buscar o equilíbrio acima de tudo; mas agora confesso que ter que administrar circunstâncias extremas, que exigem de uma pessoa concentrada dose de maleabilidade, direção e, principalmente, de suportabilidade não é simples. Muito menos fácil. É sim tarefa de gladiador. Porque em alguns momentos me sentia assim...

Só para se ter uma ideia, durante esse ano acredito que vivenciei tanta pressão e foi tanto estresse que em alguns momentos, não sei por que – e por descuido também não procurei um médico – meus ouvidos sangraram. Nunca passei por isso. Em dias tensos, quando as sensações e os sentimentos eram mais intensos, eu sentia bastante dor de cabeça e ao final desses dias meus ouvidos sangravam. Não sentia dor, mas após isso ocorrer tinha enxaqueca. A partir daí soube que a situação na qual me encontrava era complicada mesmo e eu teria que me cuidar. E foi o que fiz. Passei a fazer atividade física com maior regularidade e intensidade. Ao correr adquiri um hábito de fazer pequenas multiplicações mentalmente durante o exercício. Pensava que esta seria uma forma de raciocinar melhor sob períodos de estresse físico. Gosto de correr rápido e chego no limite do cansaço, e me obrigar a fazer cálculos durante esse percurso me ajudou a raciocinar melhor sob o estresse diário. A alimentação também foi o foco. Procurei prestar ainda mais atenção à qualidade do que ingeria. Sem falar em dormir mais também. Nunca fui muito fã de dormir cedo, muito pelo contrário, já tive insônia e sempre gostei de ficar acordado durante à madrugada. Então precisei me policiar nisso. E confesso que trabalhei melhor quando consegui dormir bem.

Nesse ano fiz cursinho pré-vestibular após o trabalho, para adentrar à Unicamp. Meu sonho sempre foi estudar lá. Infelizmente ele não se realizou desta vez. Confesso que fiquei muito sentido com isso. Para falar bem a verdade ainda estou digerindo...

Administrar trabalho estressante, vida pessoal conturbada e ansiedade pré vestibular é coisa do demônio! rs Daqui deste ponto onde me encontro, próximo do ano seguinte, olhando para trás, sinto como se tivesse corrido uma maratona! Esse foi um ano difícil de viver. Dizia a quem quisesse ouvir, que viver é para quem tem talento. E repetia-me diariamente: força, força, força, ergue e segue, levanta e segue, não para... Lavava as mãos para esfriar as ideias. Contava até dez para distrair o nervoso. E corria para dar vazão à energia! Acho que se não corresse tinha tido um AVC. Batia aquela raiva, eu tomava uma ducha fria, colocava um tênis e saia. Só isso me acalmava... por algumas horas...

Conclui neste ano que a vida é realmente para quem tem talento para O Improviso! O inesperado, aquilo que vai contra tudo o que pensamos, desejamos, julgamos correto. A capacidade de lidar com tudo o que nos acontece como sendo do próprio processo em si, sem julgamentos.
É muito fácil acreditar que só porque disse assim o papel, o planejamento, a teoria, que a prática vai acatar. Não é assim! A Vida tem um planejamento. E eu vivenciei isso este ano. Como dizem: na prática a teoria é outra. Essa minha desilusão com uma vida programada, de que tudo vai dar certo se nós simplesmente seguirmos os procedimentos passo a passo, tem me feito ver a vida com outros olhos. Olhos que ainda não distinguem bem o que vêm, mas já estão abertos à mudança de olhar. Um convite a uma vida menos engessada por regras de causa e efeito, por merecimentos ou desmerecimentos etc. De certa forma me sinto feliz, porque entro em 2015 com este novo desafio.

Os gregos acreditavam que três senhoras lúgubres teciam o destino dos homens, e eles as chamavam de As Moiras. Nunca aceitei a possibilidade de existir uma Roda da Fortuna onde meu fim já estava decidido; nunca aceitei o Destino. Entretanto, neste ano a vida me mostrou também que, mesmo que não exista destino, uma pessoa seguir passo a passo procedimentos para atingir algo também não garante coisa alguma. Então não há Destino, nem Garantia. O que sobra disso é o que me proponho a desenvolver neste próximo ano. A capacidade de não delimitar a vida com certos vereditos. Sucesso, fracasso, destinos, são limites que os seres humanos deram para poderem qualificar suas vidas por pedaços, por períodos. Mas para a Vida só existe um único fio, sem princípio nem fim, em que tudo o que acontece faz parte dele. E se esse fio não tem fim não tem lógica discutirmos destino. A única razão do fio é estar forte para não arrebentar.


Quando qualquer coisa que te contrarie acontecer, ao invés de questionar se isso foi obra do destino ou se foi um erro de sua parte, mude o foco: pergunte-se se isso te deixará mais forte ou mais fraco. Pense no que ganhará de força com essa experiência. Pois quanto mais forte estiver o fio, menos chance ele terá de se arrebentar. Esse é o nosso único objetivo, adquirir força.

Eu desejo um feliz natal e que em 2015 você se encontre ainda mais forte!
 

sábado, 13 de dezembro de 2014

"Eu vejo um novo começo de era...


The Portal, de Murat Sayginer



Tempos Modernos
(Lulu Santos)

Eu vejo a vida melhor no futuro
Eu vejo isso por cima de um muro de hipocrisia
Que insiste em nos rodear

Eu vejo a vida mais clara e farta
Repleta de toda satisfação
Que se tem direito
Do firmamento ao chão

Eu quero crer no amor numa boa
Que isto valha pra qualquer pessoa
Que realizar a força que tem uma paixão

Eu vejo um novo começo de era
De gente fina, elegante e sincera
Com habilidade
Pra dizer mais sim do que não, não não

Hoje o tempo voa, amor
Escorre pelas mãos
Mesmo sem se sentir

Não há tempo que volte, amor
Vamos viver tudo o que há pra viver
Vamos nos permitir


...

domingo, 30 de novembro de 2014

Descendentes

 
A força da vida é como um rio que corre; de uma forma ou de outra, seguirá em frente...


(...)Rachai um pedaço de madeira, e eu estou lá. Levantai a pedra e aí me encontrareis.””

E ele disse: "Quem encontrar a interpretação destas Sentenças não experimentará a morte.””

(Apócrifo Evangelho de Tomé [ou seria de Judas?] )

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

OS CAVALEIROS E SUAS CRUZADAS


São Jorge e o Dragão, de Gustave Moreau.

O homem nasceu para a ação, tal como o fogo tende para cima e a pedra para baixo.” ( Voltaire )


Sempre admirei o fato de São Jorge ser um santo e um guerreiro. Pois significa que para ser bom não precisa ser fraco. O caminho do bem também requer lutar com garra, pois sempre haverão as cruzadas da vida. Sempre admirei esse código dos cavaleiros. Guerreiros templários, medievais, montados em cavalos fortes, empunhando longas espadas, usando armaduras reluzentes com brasões em cores bem vivas desenhados no peito e orgulhosamente lutando até o morte se preciso for para defender uma nação, um lema ou uma causa. As vezes estando a própria família em jogo. Guerreiros que no fundo se abdicariam de si mesmos, anulando suas vidas por completo para olhar uma estrela a ser alcançada, defendida, e simplesmente busca-la. Com resignação. Com coragem. Com lealdade!

Vejo glória em sacrifícios assim, pois penso que o caráter de um homem pode muito bem ser medido pela intensidade com que ele protege e luta por aquilo que verdadeiramente ama. É preciso muita força e dedicação para se manter firme e leal a qualquer coisa que seja. É quase uma vocação. A lealdade seja talvez a característica mais marcante numa pessoa. A firmeza do seu caráter, através da sua capacidade de se manter firme àquilo que jurou defender junto. A própria palavra lealdade me parece ter se derivado dessa outra: “lado”. Lado a lado...

Só que um cavaleiro de verdade também não é assim alienado pela ideia que o norteia, sem ter um sentido ao que faz. Ele deve saber muito bem o que defende; ele precisa acreditar naquilo que busca; e, principalmente, ele precisa comungar dos mesmos princípios e ideais centrais motivadores. Somente assim é justificado todo sofrimento, toda dor, toda lágrima até uma morte honrosa. No fundo todo guerreiro busca isso, uma morte honrosa. “Até que a morte os separe”, lembra? Isso vale para tudo a que nos unimos nessa vida por amor. Pois apenas o amor justifica tal coisa, acredite.

Eu anseio e gosto quando a minha vida ganha esse brilho de sacrifício. Para mim não há nada mais forte do que trabalhar, sofrer, suar, brigar por aquilo que acredito me fazer um sentido particular; ou quando o que está em jogo perpassa aqueles que me são especiais. Tudo acaba valendo a pena. Os caminhos estreitando a travessia, e a vida pedindo mais concentração e habilidade no combate. As lembranças e os sentimentos cortando a pele como lâminas, e o sinal que trocarei de pele para surgir uma armadura mais resistente, e a antiga precisará ser queimada. Cada dificuldade trazendo consigo uma espécie de sofrimento motivador, proporcionando-me mais gás e me dando mais gana na cruzada. Apesar de serem momentos terrivelmente difíceis de travar, sei que nessas horas somente a lealdade ao que verdadeiramente amo e acredito que deverá falar mais alto e me relembrar de persistir junto. A vida termina ganhando um novo norte e toda dor ganha um novo sentido. E tudo o que buscamos nessa vida é um sentido.

Apesar de eu as vezes procurar tranquilidade e sossego, já percebi que não suporto tanto tempo os intervalos entre uma batalha e outra. Nem eu, nem a vida. Acaba sendo angustiante demais para quem tem energia de sobra ficar parado. Sou brasa encoberta. Preciso de uma boa causa para lutar. Que me deem uma boa briga para participar. Quero um bom motivo para viver. Pois se viver é uma dádiva, é preciso também um bom motivo para morrer!


"O valor dos grandes homens mede-se pela importância dos serviços prestados à humanidade." (Voltaire)


domingo, 16 de novembro de 2014

O silêncio do Oráculo



"Ó homem, conhece-te a ti mesmo e conhecerás os deuses e o universo."
*Inscrição no oráculo de Delfos, atribuída aos Sete Sábios
(c. 650a.C.-550 a.C.)
 
Desde de criança estudo esoterismo. Me lembro que me aguçava a curiosidade só de ouvir ou ler palavras como “mistério”, “oculto”, “secreto”; ou quando percebia adultos ao meu redor conversarem afastados do público em geral, com um ar de suspense. Essas conversas podiam não ser nada do que eu imaginava, mas me fixava nesses movimentos isolados. Como são os processos invisíveis ao olho nu. A germinação de uma semente. A cura de uma doença. O ar que respiramos. A vida do aspecto micro. Além até, quântico. Nós não vemos mas estão acontecendo. E eu gosto de captar esses processos com intuição, pois tenho fé que assim mantemos contato com o Criador. E aí entra o tema do post: Diálogos com o Criador.

Tenho passado por uma fase difícil e tudo começou quando parei de ouvir Deus. Essa linguagem Dele subliminar, intuitiva, muitas vezes falada apenas em nossos corações, a mim sumiu de repente. Como se a comunicação fosse falhando, falhando, diminuindo a cada dia mais, até que um dia simplesmente desapareceu. Senti que Ele saiu de cena e eu fique aqui só. Com algum propósito, só pode – pensava.

Bem, aguentei firme os primeiros dias. Assim que as semanas foram se passando, e os meses também, comecei a surtar... Esbravejei, blasfemei, praguejei contra a Vida! Sempre fui um homem de fé e temente a Deus, mas me senti totalmente desamparado. Será um teste? - me indagava (e vai por mim: é sempre uma espécie de teste).

Como um eterno buscador de respostas, fui consultar os conhecimentos antigos. Para a numerologia pitagórica estou num ano pessoal 7 (Autoconhecimento). Para a astrologia num ano escorpiano (“A ti Escorpião, darei uma tarefa muito difícil. Terás a habilidade de conhecer a mente dos homens, mas não te darei a permissão de falar sobre o que aprenderes. Muitas vezes te sentirás ferido por aquilo que vês, e em tua dor te voltarás contra Mim, esquecendo que não sou Eu, mas a perversão de Minha Idéia, o que te faz sofrer. Verás tanto e tanto do homem enquanto animal, e lutarás tanto com os instintos em ti mesmo, que perderás o teu caminho; mas quando finalmente voltares, terei para ti o Dom supremo da Finalidade.”). E para o tarot, são três cartas: Os enamorados, A força e A estrela (Decisão, Força e Fé). 

*O Olho da Providência

Bem, muitas dessas coisas me pareciam fazer sentido. E se haveria um propósito maior, somente minha fé Nele me ajudaria. Firme na garrucha! – me dizia todos os dias, lembrando da minha falecida vó. E assim fui com resiliência tocando os dias. Ora Deus conversava comigo e curava minhas tristezas - mas não respondia minhas perguntas; ora Ele sumia novamente. Já estava me irritando esse jogo! Após as orações eu ainda continuava perdido e achava que estava começando a ficar louco, que estava ido longe demais com esses diálogos - mais para monólogos - com Deus. Ou Ele ou eu tinha que dar um jeito nessa situação. Ou eu ia simplesmente me dar um comando (sim, como uma espécie de máquina! rs) para agir como gente grande: ter fé, ser forte, aguentar firme e entender que isso são fases difíceis da vida que todos passam, e fim de papo!

Mas assim eu não queria, isso pra mim não bastava... Eu queria tanto entender esse processo a fundo, com intensidade, com profundidade, tirar uma conclusão disso tudo e poder de alguma forma crescer com isso. Aprender com isso. Sempre acreditei que Deus tem uma missão para cada um de nós e Ele fala conosco em todas as fases da vida. Com essa não haveria de ser diferente!

Foi então que numa sombria madrugada, quase às 05:00, após ter varado à noite discutindo com Deus, tudo se iluminou de alguma forma. Parei para refletir por onde, por qual assunto - o tema específico – que comecei a ler e estudar sobre esoterismo. E me lembrei que foi sobre oráculos. Notei que a minha motivação primeira foi obter um contato direto com a Divindade. Com essa parte pura e sagrada que habita todo ser humano. Uma parte Criativa, Criadora, de grande Conhecimento. E que busquei esse contato direto por medo. O início de todo esse processo foi medo. Medo de viver a minha própria vida. Medo de tomar em minhas mãos as rédeas da carruagem e deixar de atribuir a Deus cada passo a ser dado. Desde de criança sou indeciso e inseguro, porque tenho medo de tomar a decisão errada e magoar aqueles que amo. Mas quanto mais experiências vivo descubro que as diferenciações entre decisões certas e erradas são reducionistas e polarizadas. 

Dei por mim que, como muitos, continuo buscando um contato com um Deus que me aponte um caminho a seguir, que decida por mim, que fale objetivamente o que seu fiel servo deve fazer. Por esse motivo os homens criaram os oráculos. Por isso os jogos adivinhatórios, como os baralhos de tarot, as runas etc; por isso o homem olhou para o céu e às estrelas; muitas vezes para não ter que olhar para a própria vida e encontrar nas suas atitudes as respostas para o seu destino. Deus deu ao Homem o livre arbítrio e a racionalidade para ser livre para discernir o que é melhor a ser feito. Mas nós queremos um Deus que aponte um caminho de salvação, uma porta para os céus, as palavras sagradas, porque assim é muito mais fácil, e também mais cômodo.
Queremos que Deus seja como a placa de trânsito que nos aponta o caminho para a estrada reta, mas tenho pensado Nele ultimamente como um grande farol que ilumina todo o mar e cabe a cada um de nós a decisão íntima de por onde navegar. Acredito hoje que Deus nos quer fortes, que tenhamos fé Nele, mas que também tenhamos fé em nós mesmos!

Passei a minha vida inteira pedindo a Deus: “aponte-me Senhor um caminho; diga-me o que queres que eu faça” e hoje é como se o Criador replicasse: “aponte-me Você um caminho; diga-me Você o que queres fazer, e Eu sempre O seguirei”. 

Para finalizar, um poema: 

O Poeta & O Espelho 

(de Felipe Santos)


I – Vem Ver
(O Espelho:)

Bem vindo meu amigo
É bom vê-lo novamente!
Quanto tempo esteve longe,
Perdido em sua mente?

Ignorou suas falhas…
Maquiou todos os defeitos…
Ergueu suas muralhas…
Criou seus preconceitos…

Tsc, tsc, tsc…

Forjou tantas máscaras…
Para vestir quando me olhar…
Mas eis que aqui estou
E te aconselho a tirar

Tente manter a calma
Faça tudo, mas não fuja
Pois a sujeira em baixo do tapete
Ainda continua suja

Venha comigo
Venha, segure minha mão
Pois juntos daremos um volta

Para o Jardim de Sua Vida
Atravessaremos a porta

Lá lhe mostrarei
Tudo o que precisa ver
Não tenha tanto medo
Pois tudo
Tudo aqui

É você

(...)

É um poema muito bonito! Ele tem sequência e recomendo muito que leiam porque vale a pena.

sábado, 4 de outubro de 2014

DECISÕES


Os chineses aprenderam sobre flexibilidade ao observar como o bambu se comporta numa ventania. Perceberam que uma árvore rígida quebra-se com um vento muito forte. O bambu não. Ele se curva e depois que o vendaval passa volta intacto à posição original.”


Decidir é uma das tarefas mais difíceis na vida. E das mais importantes também. Decisões mostram o seu caráter e certamente irão determinar o seu destino. A questão mais difícil aqui não seria exatamente decisões em si, mas especificamente o processo decisório. Durante o decidir. Decisões são apenas a ponta de uma lança; mas há todo um processo antes, que para alguns chega a demorar bastante. Comigo é assim. Dependendo da questão é complexo. Tanto posso me surpreender com a conclusão chegada, como chego a sofrer um bocado também. Fico quieto e isolado. Ruminando dias. É um verdadeiro calvário. Durmo e acordo com a questão; me alimento com a questão; tomo banho, escovo os dentes, dirijo com a questão. Haverá uma simbiose até uma síntese, até formar uma decisão definitiva. Sim, definitiva! E vou me explicar por quê.

Atento ao que eu quero; ao que está em jogo; a quem são os envolvidos; e no que impactará qualquer decisão. Estratégia isso? Pode até ser. Mas não bem pragmatismo. Também não é preocupação com o que os outros irão achar, e sim em como serão afetados os envolvidos. É importante pesarmos o quanto os nossos interesses impactarão nas outras pessoas, em nós mesmos, e até onde valerá a pena, a curto, a médio e a longo prazo.

The Choice of Hercules - Nicolas Poussin

Por essa sistematização toda, quem me conhece fala que para eu tomar uma decisão preciso até meditar antes. Dou risada é claro. Mas acho mais engraçado que para outras pessoas, que não me conhecem tanto, passo outra imagem. De alguém muito decidido. Mas eu nunca fui. Talvez a razão de eu transparecer isso, seria porque defendo que, após uma análise criteriosa, após um planejamento difícil, após uma reflexão dolorosa, a ação resultante deve ser firme. Constante e objetiva. Eu demoro dias debatendo sobre uma questão – mesmo sozinho –, mas após chegado a um acordo, arregaço as mangas e não se fala mais no assunto. Toco o barco adiante. E não vou parar até segunda ordem! Posso até reavaliar o planejado, mas a essa altura do campeonato não faço nenhuma alteração drástica sem que argumentos levantados sejam infalíveis! Ou no mínimo pertinentes. Não me deixo influenciar por modismo, vontade efêmera, auto-sabotagem, censura, crítica, nem sentimentalismo; ou as novas alterações serão incorporadas ao DNA daquilo que foi planejado anteriormente, ou não serão consideradas; sinto muito aos outros ou a mim mesmo.

Por isso eu disse acima que a princípio para mim decisões devem ser definitivas. Por isso eu disse que os meus riscos no chão, lá do post anterior, são fins provisórios. As decisões, as leis, as regras, as políticas, os princípios são fins. Provisórios, mas fins. Até uma segunda análise, até segunda ordem, até um segundo planejamento é isso que deverá ser respeitado. E seguido. Imagine se mudássemos as leis, os nossos planos pessoais, os projetos no trabalho, de acordo com o nosso humor. Ao sabor do vento. A vida seria um caos! Ninguém respeitaria ninguém. Nem mesmo nós nos respeitaríamos. Mas tem gente que faz isso. Toma uma decisão hoje – de cabeça quente –, para tomar outra amanhã; muda planos, rescinde contratos, quebra compromissos, traem acordos por impulsos. E se dizem flexíveis, com a desculpa de dançar conforme a música. E eu para essas pessoas sou rígido, inflexível, não sei lidar com os imprevistos da vida, é claro. Infelizmente já ouvi muito isso, não vou negar que dou essa conotação mesmo. A de ser alguém que não tem molejo, que não se dobra facilmente. Mas eu sei lidar com os imprevistos sim. E para isso nem sempre é necessário mudar. As vezes o verbo é outro. É resistir.

Os Amantes - Arcano VI do Tarot

Decidir não é fácil mesmo, porque envolve tantas coisas. Mas não acredito em decisões certas ou erradas, eu acredito em decisões! Não importa se uma decisão se mostrará correta ou errada, importa o quanto essa decisão foi pensada, repensada e tomada com coragem, e o quanto ela será respeitada até segunda ordem. Como nas empresas, existem a Missão, a Visão e os Valores. Eu sinceramente acredito ser saudável mudar a nossa visão ao longo da vida, repensarmos alguns valores também, porém a missão é imutável. Não faz sentido mudarmos constantemente, se a vida nos exige atitude e uma posição. É preciso estabelecer uma posição na vida.

Aquele bambu inicial até se dobra ao vento, mas note também que a sua raiz nunca saiu do mesmo lugar! Penso eu então que o foco não seria bem flexibilidade, mas talvez humildade!

domingo, 28 de setembro de 2014

LIMITE: UMA PONTE OU UM FIM?


O homem é corda estendida entre o animal e o Superhomem: uma corda sobre um abismo; perigosa travessia, perigoso caminhar; perigoso olhar para trás, perigoso tremer e parar.” (Nietzsche)


Gosto muito da ideia de limite e de tempo. Desde de criança imagino um cenário onde leis e limites são traços no chão. Riscos nos contornando. Penso, desde essa época, na interação com essas demarcações no chão. E procuro repetir a mim mesmo. “Ficar sempre antes delas”. “Ficar em cima delas”. “Um pé lá, um pé cá”. “As vezes dois pés lá!”. Penso na relação dessas demarcações com a segurança e a manutenção e a evolução das coisas. Quando olho para a História da humanidade por exemplo, as vezes concluo que só evoluímos graças a homens e mulheres que ousaram ultrapassar essas linhas em algum momento. Entretanto, as vezes também concluo que muitos morreram por este mesmo motivo. Então me confundo sobre qual seria a melhor relação com os limites. Afinal, para que são feitos os limites? Controlar o que está a montante? Potencializar? Reprimir? Eles têm prazo de validade? Quem deve determiná-los?

Quando procuro as respostas na filosofia, chego a conclusão que todo ser vivo, sendo parte da natureza, é uma força que tenta a todo instante transbordar. Não sei se seria necessariamente uma única força em questão; penso em várias forças agindo em conjunto. O fato é que essa força naturalmente procura vazão. Isso significa que embora vivamos em sociedade e que precisamos de disciplina, nós naturalmente somos compostos de violência, de excessos. Aí entre o conceito de “super homem” de Nietzsche, o homem domando a si mesmo. Porém, isso também não deixa de ser uma violência com nós mesmos, pois domar a si mesmo é ato que, a priori, vai contra a nossa natureza.

Analisando pelo prisma da sociologia, o homem é um animal social e para haver civilidade as leis são necessárias. Mas quem cria as leis são homens, e como o homem é falho certas leis também podem ser. Regimes nazistas e fascistas que o digam. Portanto, as leis são tentativas de organizar uma sociedade, mas dependendo do lugar e do tempo em que forem avaliadas podem ser relativas. Até erradas. Avaliemos as leis existentes a cem anos atrás... Então aqueles meus riscos no chão começam a ganhar uma certa mobilidade...

Hoje, após duas décadas vividas, já tendo adquirido uma certa experiência – e um histórico! – concluo que existem limites criados para o nosso bem, mas a estes sempre caberão reavaliações constantes. Tenho ciência que dentro de mim existe uma gama de intensidades que nem sempre saberei controlá-las, mas que isso não tira a responsabilidade pelos meus atos. Posso certamente dizer que limite e tempo são os temas centrais da minha vida. Nada me fascinou – e incomodou – tanto quanto isso. Até hoje, diante de certos limites confesso que nunca sei exatamente o que fazer, e por quanto tempo; se uma metade minha é conservadora, a outra certamente deve ser bem revolucionária!

Limites são fins provisórios! Reflita. Policie. Atualize-se constantemente. E questione sempre que possível. Tanto princípios morais quanto éticos, tanto democracia quanto justiça são coisas que precisam ser eternamente discutidas e revistas. Para não haver relatividade são estabelecidos parâmetros de tempo num espaço; sem revisões podemos muito bem nos encurralar em fronteiras que já nem devem mais existir!