sábado, 13 de dezembro de 2014

"Eu vejo um novo começo de era...


The Portal, de Murat Sayginer



Tempos Modernos
(Lulu Santos)

Eu vejo a vida melhor no futuro
Eu vejo isso por cima de um muro de hipocrisia
Que insiste em nos rodear

Eu vejo a vida mais clara e farta
Repleta de toda satisfação
Que se tem direito
Do firmamento ao chão

Eu quero crer no amor numa boa
Que isto valha pra qualquer pessoa
Que realizar a força que tem uma paixão

Eu vejo um novo começo de era
De gente fina, elegante e sincera
Com habilidade
Pra dizer mais sim do que não, não não

Hoje o tempo voa, amor
Escorre pelas mãos
Mesmo sem se sentir

Não há tempo que volte, amor
Vamos viver tudo o que há pra viver
Vamos nos permitir


...

domingo, 30 de novembro de 2014

Descendentes

 
A força da vida é como um rio que corre; de uma forma ou de outra, seguirá em frente...


(...)Rachai um pedaço de madeira, e eu estou lá. Levantai a pedra e aí me encontrareis.””

E ele disse: "Quem encontrar a interpretação destas Sentenças não experimentará a morte.””

(Apócrifo Evangelho de Tomé [ou seria de Judas?] )

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

OS CAVALEIROS E SUAS CRUZADAS


São Jorge e o Dragão, de Gustave Moreau.

O homem nasceu para a ação, tal como o fogo tende para cima e a pedra para baixo.” ( Voltaire )


Sempre admirei o fato de São Jorge ser um santo e um guerreiro. Pois significa que para ser bom não precisa ser fraco. O caminho do bem também requer lutar com garra, pois sempre haverão as cruzadas da vida. Sempre admirei esse código dos cavaleiros. Guerreiros templários, medievais, montados em cavalos fortes, empunhando longas espadas, usando armaduras reluzentes com brasões em cores bem vivas desenhados no peito e orgulhosamente lutando até o morte se preciso for para defender uma nação, um lema ou uma causa. As vezes estando a própria família em jogo. Guerreiros que no fundo se abdicariam de si mesmos, anulando suas vidas por completo para olhar uma estrela a ser alcançada, defendida, e simplesmente busca-la. Com resignação. Com coragem. Com lealdade!

Vejo glória em sacrifícios assim, pois penso que o caráter de um homem pode muito bem ser medido pela intensidade com que ele protege e luta por aquilo que verdadeiramente ama. É preciso muita força e dedicação para se manter firme e leal a qualquer coisa que seja. É quase uma vocação. A lealdade seja talvez a característica mais marcante numa pessoa. A firmeza do seu caráter, através da sua capacidade de se manter firme àquilo que jurou defender junto. A própria palavra lealdade me parece ter se derivado dessa outra: “lado”. Lado a lado...

Só que um cavaleiro de verdade também não é assim alienado pela ideia que o norteia, sem ter um sentido ao que faz. Ele deve saber muito bem o que defende; ele precisa acreditar naquilo que busca; e, principalmente, ele precisa comungar dos mesmos princípios e ideais centrais motivadores. Somente assim é justificado todo sofrimento, toda dor, toda lágrima até uma morte honrosa. No fundo todo guerreiro busca isso, uma morte honrosa. “Até que a morte os separe”, lembra? Isso vale para tudo a que nos unimos nessa vida por amor. Pois apenas o amor justifica tal coisa, acredite.

Eu anseio e gosto quando a minha vida ganha esse brilho de sacrifício. Para mim não há nada mais forte do que trabalhar, sofrer, suar, brigar por aquilo que acredito me fazer um sentido particular; ou quando o que está em jogo perpassa aqueles que me são especiais. Tudo acaba valendo a pena. Os caminhos estreitando a travessia, e a vida pedindo mais concentração e habilidade no combate. As lembranças e os sentimentos cortando a pele como lâminas, e o sinal que trocarei de pele para surgir uma armadura mais resistente, e a antiga precisará ser queimada. Cada dificuldade trazendo consigo uma espécie de sofrimento motivador, proporcionando-me mais gás e me dando mais gana na cruzada. Apesar de serem momentos terrivelmente difíceis de travar, sei que nessas horas somente a lealdade ao que verdadeiramente amo e acredito que deverá falar mais alto e me relembrar de persistir junto. A vida termina ganhando um novo norte e toda dor ganha um novo sentido. E tudo o que buscamos nessa vida é um sentido.

Apesar de eu as vezes procurar tranquilidade e sossego, já percebi que não suporto tanto tempo os intervalos entre uma batalha e outra. Nem eu, nem a vida. Acaba sendo angustiante demais para quem tem energia de sobra ficar parado. Sou brasa encoberta. Preciso de uma boa causa para lutar. Que me deem uma boa briga para participar. Quero um bom motivo para viver. Pois se viver é uma dádiva, é preciso também um bom motivo para morrer!


"O valor dos grandes homens mede-se pela importância dos serviços prestados à humanidade." (Voltaire)


domingo, 16 de novembro de 2014

O silêncio do Oráculo



"Ó homem, conhece-te a ti mesmo e conhecerás os deuses e o universo."
*Inscrição no oráculo de Delfos, atribuída aos Sete Sábios
(c. 650a.C.-550 a.C.)
 
Desde de criança estudo esoterismo. Me lembro que me aguçava a curiosidade só de ouvir ou ler palavras como “mistério”, “oculto”, “secreto”; ou quando percebia adultos ao meu redor conversarem afastados do público em geral, com um ar de suspense. Essas conversas podiam não ser nada do que eu imaginava, mas me fixava nesses movimentos isolados. Como são os processos invisíveis ao olho nu. A germinação de uma semente. A cura de uma doença. O ar que respiramos. A vida do aspecto micro. Além até, quântico. Nós não vemos mas estão acontecendo. E eu gosto de captar esses processos com intuição, pois tenho fé que assim mantemos contato com o Criador. E aí entra o tema do post: Diálogos com o Criador.

Tenho passado por uma fase difícil e tudo começou quando parei de ouvir Deus. Essa linguagem Dele subliminar, intuitiva, muitas vezes falada apenas em nossos corações, a mim sumiu de repente. Como se a comunicação fosse falhando, falhando, diminuindo a cada dia mais, até que um dia simplesmente desapareceu. Senti que Ele saiu de cena e eu fique aqui só. Com algum propósito, só pode – pensava.

Bem, aguentei firme os primeiros dias. Assim que as semanas foram se passando, e os meses também, comecei a surtar... Esbravejei, blasfemei, praguejei contra a Vida! Sempre fui um homem de fé e temente a Deus, mas me senti totalmente desamparado. Será um teste? - me indagava (e vai por mim: é sempre uma espécie de teste).

Como um eterno buscador de respostas, fui consultar os conhecimentos antigos. Para a numerologia pitagórica estou num ano pessoal 7 (Autoconhecimento). Para a astrologia num ano escorpiano (“A ti Escorpião, darei uma tarefa muito difícil. Terás a habilidade de conhecer a mente dos homens, mas não te darei a permissão de falar sobre o que aprenderes. Muitas vezes te sentirás ferido por aquilo que vês, e em tua dor te voltarás contra Mim, esquecendo que não sou Eu, mas a perversão de Minha Idéia, o que te faz sofrer. Verás tanto e tanto do homem enquanto animal, e lutarás tanto com os instintos em ti mesmo, que perderás o teu caminho; mas quando finalmente voltares, terei para ti o Dom supremo da Finalidade.”). E para o tarot, são três cartas: Os enamorados, A força e A estrela (Decisão, Força e Fé). 

*O Olho da Providência

Bem, muitas dessas coisas me pareciam fazer sentido. E se haveria um propósito maior, somente minha fé Nele me ajudaria. Firme na garrucha! – me dizia todos os dias, lembrando da minha falecida vó. E assim fui com resiliência tocando os dias. Ora Deus conversava comigo e curava minhas tristezas - mas não respondia minhas perguntas; ora Ele sumia novamente. Já estava me irritando esse jogo! Após as orações eu ainda continuava perdido e achava que estava começando a ficar louco, que estava ido longe demais com esses diálogos - mais para monólogos - com Deus. Ou Ele ou eu tinha que dar um jeito nessa situação. Ou eu ia simplesmente me dar um comando (sim, como uma espécie de máquina! rs) para agir como gente grande: ter fé, ser forte, aguentar firme e entender que isso são fases difíceis da vida que todos passam, e fim de papo!

Mas assim eu não queria, isso pra mim não bastava... Eu queria tanto entender esse processo a fundo, com intensidade, com profundidade, tirar uma conclusão disso tudo e poder de alguma forma crescer com isso. Aprender com isso. Sempre acreditei que Deus tem uma missão para cada um de nós e Ele fala conosco em todas as fases da vida. Com essa não haveria de ser diferente!

Foi então que numa sombria madrugada, quase às 05:00, após ter varado à noite discutindo com Deus, tudo se iluminou de alguma forma. Parei para refletir por onde, por qual assunto - o tema específico – que comecei a ler e estudar sobre esoterismo. E me lembrei que foi sobre oráculos. Notei que a minha motivação primeira foi obter um contato direto com a Divindade. Com essa parte pura e sagrada que habita todo ser humano. Uma parte Criativa, Criadora, de grande Conhecimento. E que busquei esse contato direto por medo. O início de todo esse processo foi medo. Medo de viver a minha própria vida. Medo de tomar em minhas mãos as rédeas da carruagem e deixar de atribuir a Deus cada passo a ser dado. Desde de criança sou indeciso e inseguro, porque tenho medo de tomar a decisão errada e magoar aqueles que amo. Mas quanto mais experiências vivo descubro que as diferenciações entre decisões certas e erradas são reducionistas e polarizadas. 

Dei por mim que, como muitos, continuo buscando um contato com um Deus que me aponte um caminho a seguir, que decida por mim, que fale objetivamente o que seu fiel servo deve fazer. Por esse motivo os homens criaram os oráculos. Por isso os jogos adivinhatórios, como os baralhos de tarot, as runas etc; por isso o homem olhou para o céu e às estrelas; muitas vezes para não ter que olhar para a própria vida e encontrar nas suas atitudes as respostas para o seu destino. Deus deu ao Homem o livre arbítrio e a racionalidade para ser livre para discernir o que é melhor a ser feito. Mas nós queremos um Deus que aponte um caminho de salvação, uma porta para os céus, as palavras sagradas, porque assim é muito mais fácil, e também mais cômodo.
Queremos que Deus seja como a placa de trânsito que nos aponta o caminho para a estrada reta, mas tenho pensado Nele ultimamente como um grande farol que ilumina todo o mar e cabe a cada um de nós a decisão íntima de por onde navegar. Acredito hoje que Deus nos quer fortes, que tenhamos fé Nele, mas que também tenhamos fé em nós mesmos!

Passei a minha vida inteira pedindo a Deus: “aponte-me Senhor um caminho; diga-me o que queres que eu faça” e hoje é como se o Criador replicasse: “aponte-me Você um caminho; diga-me Você o que queres fazer, e Eu sempre O seguirei”. 

Para finalizar, um poema: 

O Poeta & O Espelho 

(de Felipe Santos)


I – Vem Ver
(O Espelho:)

Bem vindo meu amigo
É bom vê-lo novamente!
Quanto tempo esteve longe,
Perdido em sua mente?

Ignorou suas falhas…
Maquiou todos os defeitos…
Ergueu suas muralhas…
Criou seus preconceitos…

Tsc, tsc, tsc…

Forjou tantas máscaras…
Para vestir quando me olhar…
Mas eis que aqui estou
E te aconselho a tirar

Tente manter a calma
Faça tudo, mas não fuja
Pois a sujeira em baixo do tapete
Ainda continua suja

Venha comigo
Venha, segure minha mão
Pois juntos daremos um volta

Para o Jardim de Sua Vida
Atravessaremos a porta

Lá lhe mostrarei
Tudo o que precisa ver
Não tenha tanto medo
Pois tudo
Tudo aqui

É você

(...)

É um poema muito bonito! Ele tem sequência e recomendo muito que leiam porque vale a pena.

sábado, 4 de outubro de 2014

DECISÕES


Os chineses aprenderam sobre flexibilidade ao observar como o bambu se comporta numa ventania. Perceberam que uma árvore rígida quebra-se com um vento muito forte. O bambu não. Ele se curva e depois que o vendaval passa volta intacto à posição original.”


Decidir é uma das tarefas mais difíceis na vida. E das mais importantes também. Decisões mostram o seu caráter e certamente irão determinar o seu destino. A questão mais difícil aqui não seria exatamente decisões em si, mas especificamente o processo decisório. Durante o decidir. Decisões são apenas a ponta de uma lança; mas há todo um processo antes, que para alguns chega a demorar bastante. Comigo é assim. Dependendo da questão é complexo. Tanto posso me surpreender com a conclusão chegada, como chego a sofrer um bocado também. Fico quieto e isolado. Ruminando dias. É um verdadeiro calvário. Durmo e acordo com a questão; me alimento com a questão; tomo banho, escovo os dentes, dirijo com a questão. Haverá uma simbiose até uma síntese, até formar uma decisão definitiva. Sim, definitiva! E vou me explicar por quê.

Atento ao que eu quero; ao que está em jogo; a quem são os envolvidos; e no que impactará qualquer decisão. Estratégia isso? Pode até ser. Mas não bem pragmatismo. Também não é preocupação com o que os outros irão achar, e sim em como serão afetados os envolvidos. É importante pesarmos o quanto os nossos interesses impactarão nas outras pessoas, em nós mesmos, e até onde valerá a pena, a curto, a médio e a longo prazo.

The Choice of Hercules - Nicolas Poussin

Por essa sistematização toda, quem me conhece fala que para eu tomar uma decisão preciso até meditar antes. Dou risada é claro. Mas acho mais engraçado que para outras pessoas, que não me conhecem tanto, passo outra imagem. De alguém muito decidido. Mas eu nunca fui. Talvez a razão de eu transparecer isso, seria porque defendo que, após uma análise criteriosa, após um planejamento difícil, após uma reflexão dolorosa, a ação resultante deve ser firme. Constante e objetiva. Eu demoro dias debatendo sobre uma questão – mesmo sozinho –, mas após chegado a um acordo, arregaço as mangas e não se fala mais no assunto. Toco o barco adiante. E não vou parar até segunda ordem! Posso até reavaliar o planejado, mas a essa altura do campeonato não faço nenhuma alteração drástica sem que argumentos levantados sejam infalíveis! Ou no mínimo pertinentes. Não me deixo influenciar por modismo, vontade efêmera, auto-sabotagem, censura, crítica, nem sentimentalismo; ou as novas alterações serão incorporadas ao DNA daquilo que foi planejado anteriormente, ou não serão consideradas; sinto muito aos outros ou a mim mesmo.

Por isso eu disse acima que a princípio para mim decisões devem ser definitivas. Por isso eu disse que os meus riscos no chão, lá do post anterior, são fins provisórios. As decisões, as leis, as regras, as políticas, os princípios são fins. Provisórios, mas fins. Até uma segunda análise, até segunda ordem, até um segundo planejamento é isso que deverá ser respeitado. E seguido. Imagine se mudássemos as leis, os nossos planos pessoais, os projetos no trabalho, de acordo com o nosso humor. Ao sabor do vento. A vida seria um caos! Ninguém respeitaria ninguém. Nem mesmo nós nos respeitaríamos. Mas tem gente que faz isso. Toma uma decisão hoje – de cabeça quente –, para tomar outra amanhã; muda planos, rescinde contratos, quebra compromissos, traem acordos por impulsos. E se dizem flexíveis, com a desculpa de dançar conforme a música. E eu para essas pessoas sou rígido, inflexível, não sei lidar com os imprevistos da vida, é claro. Infelizmente já ouvi muito isso, não vou negar que dou essa conotação mesmo. A de ser alguém que não tem molejo, que não se dobra facilmente. Mas eu sei lidar com os imprevistos sim. E para isso nem sempre é necessário mudar. As vezes o verbo é outro. É resistir.

Os Amantes - Arcano VI do Tarot

Decidir não é fácil mesmo, porque envolve tantas coisas. Mas não acredito em decisões certas ou erradas, eu acredito em decisões! Não importa se uma decisão se mostrará correta ou errada, importa o quanto essa decisão foi pensada, repensada e tomada com coragem, e o quanto ela será respeitada até segunda ordem. Como nas empresas, existem a Missão, a Visão e os Valores. Eu sinceramente acredito ser saudável mudar a nossa visão ao longo da vida, repensarmos alguns valores também, porém a missão é imutável. Não faz sentido mudarmos constantemente, se a vida nos exige atitude e uma posição. É preciso estabelecer uma posição na vida.

Aquele bambu inicial até se dobra ao vento, mas note também que a sua raiz nunca saiu do mesmo lugar! Penso eu então que o foco não seria bem flexibilidade, mas talvez humildade!

domingo, 28 de setembro de 2014

LIMITE: UMA PONTE OU UM FIM?


O homem é corda estendida entre o animal e o Superhomem: uma corda sobre um abismo; perigosa travessia, perigoso caminhar; perigoso olhar para trás, perigoso tremer e parar.” (Nietzsche)


Gosto muito da ideia de limite e de tempo. Desde de criança imagino um cenário onde leis e limites são traços no chão. Riscos nos contornando. Penso, desde essa época, na interação com essas demarcações no chão. E procuro repetir a mim mesmo. “Ficar sempre antes delas”. “Ficar em cima delas”. “Um pé lá, um pé cá”. “As vezes dois pés lá!”. Penso na relação dessas demarcações com a segurança e a manutenção e a evolução das coisas. Quando olho para a História da humanidade por exemplo, as vezes concluo que só evoluímos graças a homens e mulheres que ousaram ultrapassar essas linhas em algum momento. Entretanto, as vezes também concluo que muitos morreram por este mesmo motivo. Então me confundo sobre qual seria a melhor relação com os limites. Afinal, para que são feitos os limites? Controlar o que está a montante? Potencializar? Reprimir? Eles têm prazo de validade? Quem deve determiná-los?

Quando procuro as respostas na filosofia, chego a conclusão que todo ser vivo, sendo parte da natureza, é uma força que tenta a todo instante transbordar. Não sei se seria necessariamente uma única força em questão; penso em várias forças agindo em conjunto. O fato é que essa força naturalmente procura vazão. Isso significa que embora vivamos em sociedade e que precisamos de disciplina, nós naturalmente somos compostos de violência, de excessos. Aí entre o conceito de “super homem” de Nietzsche, o homem domando a si mesmo. Porém, isso também não deixa de ser uma violência com nós mesmos, pois domar a si mesmo é ato que, a priori, vai contra a nossa natureza.

Analisando pelo prisma da sociologia, o homem é um animal social e para haver civilidade as leis são necessárias. Mas quem cria as leis são homens, e como o homem é falho certas leis também podem ser. Regimes nazistas e fascistas que o digam. Portanto, as leis são tentativas de organizar uma sociedade, mas dependendo do lugar e do tempo em que forem avaliadas podem ser relativas. Até erradas. Avaliemos as leis existentes a cem anos atrás... Então aqueles meus riscos no chão começam a ganhar uma certa mobilidade...

Hoje, após duas décadas vividas, já tendo adquirido uma certa experiência – e um histórico! – concluo que existem limites criados para o nosso bem, mas a estes sempre caberão reavaliações constantes. Tenho ciência que dentro de mim existe uma gama de intensidades que nem sempre saberei controlá-las, mas que isso não tira a responsabilidade pelos meus atos. Posso certamente dizer que limite e tempo são os temas centrais da minha vida. Nada me fascinou – e incomodou – tanto quanto isso. Até hoje, diante de certos limites confesso que nunca sei exatamente o que fazer, e por quanto tempo; se uma metade minha é conservadora, a outra certamente deve ser bem revolucionária!

Limites são fins provisórios! Reflita. Policie. Atualize-se constantemente. E questione sempre que possível. Tanto princípios morais quanto éticos, tanto democracia quanto justiça são coisas que precisam ser eternamente discutidas e revistas. Para não haver relatividade são estabelecidos parâmetros de tempo num espaço; sem revisões podemos muito bem nos encurralar em fronteiras que já nem devem mais existir!

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

CONTRADITÓRIO


*Essa foi a minha primeira tatuagem, feita em homenagem ao meu pai.
 
Eu sou geminiano. Nascido num dia 03 de junho. De acordo com a astrologia, o Sol estava na constelação de gêmeos durante o meu nascimento. Isso significa, basicamente, que era para eu ser comunicativo, extrovertido, aberto, alguém que faz amigos facilmente, que gosta de mudanças, de novidades... E eu odeio tudo isso. Sou fechado, desconfiado, sério, tenho poucos amigos, não gosto de jogar conversa fora e algumas vezes sou tão direto que minhas palavras cortam como navalhas. Só concordo com uma característica do meu signo: sou contraditório...

Eu sempre tive uma personalidade contraditória. E um gênio forte. Por deixar as minhas opiniões claras – as vezes quando não solicitadas – já bati de frente com muitas pessoas. A impressão que eu tenho é que sempre foram as pessoas que eu mais admirei e as que eu mais amei. Me lembro do meu pai reclamar à minha mãe que eu não tinha sal nem açúcar, e que eu era um mármore como pessoa. Para ele eu não devia gostar de ninguém, muito menos dele. No entanto ele estava errado nesse ponto, eu não só o amava como foi ele quem eu mais admirei nessa vida. Ele só nunca soube disso. Eu não podia dar a ele esse gosto. Morreu achando que era adiado. Ao seu lado, no seu leito de morte, chorando pedi perdão. Mas pedi em silêncio – rezando para que ele tivesse escutado...

Nunca entendi porque o esforço para não transparecer sentimentos. Me pergunte o que eu penso, o que eu acho, qual a minha opinião sobre algo, e saberá. Honesta e francamente. Me pergunte o que eu sinto a respeito e eu travarei. Vou me desconsertar, então eu desviarei o foco. Não responderei. Como um signo do elemento ar, um geminiano é bom no mundo das ideias, mas no das emoções...

O fato é que eu sempre fui estranho mesmo. E nem sempre gostei de ser assim. Na infância, enquanto via as crianças da minha idade se divertindo com amigos de verdade, eu brigava com os meus imaginários. Falava sozinho, brincava sozinho, era esquisito que só. Na escola, enquanto todos iam na biblioteca para assistir filmes na sala de vídeo, eu ia à seção esotérica ler sobre mitologias. Obviamente que eu não era a criança mais popular na época... Tinha até vergonha às vezes. Porém, foi lá, naquelas estantes, que acabei descobrindo que o planeta que regia gêmeos era mercúrio, e mercúrio era utilizado pelos alquimistas para fazer ouro, e mercúrio também era chamado de Hermes, um deus mensageiro que tinha permissão para entrar e sair do reino dos mortos – como os irmãos gêmeos Cartor e Pólux, um que vivia no céu e o outro no reino de Hades, e podiam trocar de lugar a cada dia. Essas estórias tentam simbolizar o universo ambíguo e contraditório dos nativos do signo. Bem e mal, luz e sombra, verdades e mentiras são apenas questões de prismas...

Dediquei uma boa fase da minha adolescência para refletir sobre minha personalidade. Quis entender por que o ser humano é tão complexo, por que magoamos justamente aqueles que mais amamos, por que temos dificuldade de assumir e decidir as coisas, por que a vida era assim tão conflitante... Por que a gente complica coisas que devem ser simples?! Achava que as respostas estariam no conhecimento. Então continuava “olhando para o céu”... Até que um dia me deparei com o seguinte texto: “para você, Gêmeos, dou as perguntas sem respostas para que possa trazer a todos a compreensão do que o homem vê a seu redor. Você nunca saberá por que os homens falam ou ouvem, mas em sua procura pela resposta encontrará meu dom do conhecimento". 
Apesar de me fazer sentido, se isso é verdade ou não, eu nunca saberei, mas nem preciso dizer o quão desapontado eu fiquei. Tinha que ser muito azarado para estar destinado a não ter as respostas, quando tudo o que eu mais queria era saber algumas questões existenciais.

Assim fui crescendo deslocado entre os demais. Me isolando do grupo. Adquirindo hábitos e características de ermitão. Quando ouvia meus colegas comentarem entre si, o quanto o padre tinha pedido que rezassem por aqueles pecados, tinha até medo de lhe confessar os meus. Fugia da igreja então. Me sentia alguém muito mau para pisar lá. Ou tinha algo muito errado comigo, ou o sistema que o mundo operava era muito hipócrita. Eu contrariava o meu pai e apanhava. Eu contrariava alguns professores e ia para fora da sala de aula. Eu contrariava a igreja e ia para o inferno. Eu tinha as perguntas sem respostas... O que mais podia fazer?!

Por um tempo resolvi me render ao sistema. Para sobreviver foi preciso deixar os outros pensarem que concordava um pouco com certos mandamentos. Amansei meu gênio e domestiquei minha personalidade. Embora eu saiba que aqui dentro, bem lá no fundo, preso por grades bem fortes, jaz uma fera que eu nunca soube controlar muito bem...


Todos queremos um lugar para chamar de céu, um alguém comum para chamar de santo e é claro, um Monstro para crucificarmos por nossos próprios pecados.
 

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Benu



“Assim, cortando o céu, voa ligeiro, 
Entre os mundos e mundos navegando,
Ora os ventos polares enfrentando,
Ora cortando, calmo, o róseo espaço,
Até que alcança as altaneiras águias.
Crêem ver nele as aves uma fênix
Que cortasse os espaços, solitária,
Em procura da Tebas egipciana,
Para os restos mortais no radioso
Templo do Sol guardar”
(Paraíso Perdido, John Milton)

quarta-feira, 23 de julho de 2014

POR TRÁS DE OLHOS AZUIS


Ela gesticulou brava, gritou, e por um segundo perdeu a cabeça. No outro dia, lágrimas nos olhos e um pedido de desculpa. “É o meu jeito”, disse ela envergonhadamente. Eu, apenas observava intrigado a cena. E o que é pior, sinceramente acreditando na natureza inocente dos seus atos...

Inocente. É com essa palavra que começo o post. E é com o seu significado que me defenderei para escrevê-lo. Sempre fui fascinado pela natureza das coisas. Parte simples, pura. Não pura de imaculada ou de divina. Pura de sem retoques. De primitiva. Componente de fábrica mesmo. Aquilo que veio com a gente na bagagem desde sempre.

Uma vez, ouvi uma fábula de um escorpião e um sapo. O escorpião queria atravessar de uma margem à outra de um rio e pediu ajuda ao sapo. Pediu ao sapo para atravessá-lo em suas costas. O sapo ressabiado disse-lhe: “você vai me picar”. E o escorpião jurou que não. O sapo concordou e o levou então. E no caminho ele o picou. Mas antes de afundarem o sapo disse-lhe: “você é tolo, agora ambos morreremos!”. “Eu sei, e sinto muito, mas você conhecia minha natureza”, falou o escorpião.
Achei essa fábula inquietante. E sempre que me deparava com ela ficava incomodado. Com o passar dos anos, lendo o livro A Cura Quântica, do Deepak Chopra, encontrei outra versão dessa estória, que completou o seu significado e me alegrou muito mais. Nessa versão havia dois homens e um escorpião. Um deles assistia o outro, que era muito sábio, tentando insistentemente ajudar um escorpião a subir numa calçada e este sempre picava-lhe às mãos. Foi então que, de tão intrigado, ele perguntou-lhe: “por que insiste em ajudá-lo se ele só te pica?!” O sábio sorriu e disse: “mas a sua natureza é picar, a minha é salvar”,

Achei a segunda estória muito linda, porque o sábio não lutou para compreender az razões do escorpião. Tampouco viu perversidade nisso. Ele apenas aceitou a sua natureza sem racionalizações. E impôs a sua. Permitiu que o escorpião fosse aquilo que é, sem expectativas. E isso não lhe ocasionava sofrimento algum. Penso desde então na moral dessa fábula. Ela me lembra de olhar para as pessoas aceitando aquilo que vem com elas de fábrica, sem pesar. Eu sei que estou entrando num campo polêmico entre os sociólogos, os psicólogos e os psiquiatras até. O homem nasce bom e a sociedade o corrompe, como disse Rousseau, ou, de acordo com os mais recentes estudos, há um componente genético ao caráter?

Eu particularmente acredito que o meio influencie, inibindo, instigando ou modulando até, mas tem coisa que já vem de fábrica. Pronta. Podem falar o que for, mas todos nós conhecemos casos de indivíduos que cresceram em famílias bem estruturadas, foram bem educados, eram socialmente equilibrados, eram produtivos profissionalmente e de repente, não se sabe bem o porquê, cometeram uma barbárie. Pais se perguntando onde erraram. Professores se perguntando o que aconteceu. Amigos se perguntando como nunca perceberam nada. Simplesmente acontece.
Existem também os casos de indivíduos que nunca na vida tiveram contato com música, por exemplo, e no entanto tocam divinamente. Aqueles que nunca tiveram uma aula de dança sequer e surpreendem até profissionais da área. Pessoas intelectualmente brilhantes e cognitivamente avançadas, que mal frequentaram escolas, que cresceram em ambientes caóticos, com grande tendência à marginalidade e no entanto despontaram na sociedade com dignidade. Talentos. Dons. Habilidades específicas. Capacidades instintivas. Acontece.

Quando eu era criança me lembro que preferia dias chuvosos aos ensolarados. Dias nublados então eram os melhores. Dias assim me faziam pensar melhor. Achava bonito paisagens de amanhecer e pôr do sol no mar, mas adorava muito mais assistir, em dias tempestuosos, os raios no céu, os granizos no chão, a força das águas nas calçadas e dos ventos nas árvores. Tudo bem que nos dias seguintes a essas chuvas ficavam marcas. Rastros de destruição. Mas não se podia culpar a natureza, por ser a natureza. Concordo, sim, que historicamente a mão do homem interferiu no clima, modificou e agravou os cenários, mas na natureza sempre houve desequilíbrios violentos. A vida em si é violenta. Nós cometemos violência com nós mesmos todos os dias. Quando cortarmos as unhas e os cabelos ou quando nos depilarmos. Ao fazermos cirurgias plásticas. E durante dietas. Quando reprimimos desejos, afim de potencializar outros. São verdadeiros cortes que nos fazemos, podas que de certa forma são violências. Mas é justamente aí que quero entrar, que é o ponto principal do post: o homem solitário podia ser selvagem, mas quando escolhera viver entre outros estabeleceu normas para o convívio harmonioso. Para haver civilidade. Assim foi preciso policiar a nossa natureza individual para não ferir o grupo. Ainda mais nos ambientes profissionais. Mas a questão é: até onde o grupo tem o direito de decidir quais comportamentos individuais deverão ser aceitos? E mais, até onde somos capazes, individualmente falando, de controlar tais comportamentos?

Sinceramente, eu não sei se tenho essa resposta. Mas é o que tenho me perguntado ultimamente. E me incomodado também. Principalmente quando assisto certos julgamentos. As vezes observo julgamentos, julgamentos severos, a pessoas que dão o máximo de si e só não alcançam mais porque a sua natureza limita. Uma natureza específica. Vou me utilizar como exemplo. Eu sou introvertido. Posso até tentar ser mais aberto, ser mais receptivo, um pouco mais comunicativo, mas extrovertido, extrovertido mesmo, não serei. Não me seria fácil. E sei o quanto pode ser difícil também para uma pessoa extrovertida e inquieta, parar algumas horas para escrever um texto como este. O que para mim está sendo fácil. Da mesma forma que a Amazônia tem a sua beleza, o Saara tem a dele. E não se pode esperar o clima de um no outro. Vai contra a natureza. A gente precisa então mudar o nosso olhar.

Existem diferentes formas de se existir nesse mundo, que é também de diferentes formas. Não quero relativizar leis, códigos éticos ou morais. Mas todo cuidado é pouco. Certos julgamentos são muito incisivos. Hoje tenho noção que muitas das minhas decepções tiveram mais a ver com o meu ego e com o meu orgulho, do que com qualquer outra coisa. Se eu não esperasse tanto da vida e de certas pessoas, se eu não julgasse tanto e procurasse mais ver o lado bom em como as coisas são, sem idealizações, tudo teria sido tão mais simples.

Esse é o nosso grande desafio. No fundo a vida é como um grande espelho, que precisamos enxergar além das nossas aparências refletidas nele.

sábado, 12 de julho de 2014

O Homem. O animal. E suas fases de lua



"Iluminar para sempre... Iluminar tudo... Até os últimos dias da eternidade... Iluminar e só... Eis o meu lema, e o do sol..."
(Vladimir Mayakovsky)


Tenho enfrentado um momento intimamente difícil. Intenso. E estranhamente me sinto mais forte. Sinto como se atravessasse um longo deserto. E já faz tempo que o comecei. Porém, como disse antes estou abastecido, mais preparado para atravessá-lo desta vez. Desisti de lembrar se busquei esse caminho ou se foi ele que me encontrou. Seguir em frente é o lema. Seguir em frente acaba sendo sempre um lema para mim... Olho para o céu estrelado sob minha cabeça, vejo um azul escuro intenso cravado de diamantes, ouço um silêncio familiar, então me lembro que em algum lugar Alguém me observa e confia numa superação muito mais do que eu.
Durante o dia, o sol arde na pele e o suor escorrega enquanto caminho rapidamente. À noite as lágrimas queimam no rosto frio enquanto os pensamentos se perdem no espaço buscando um oásis que ainda não conheci. Mas vai existir! Não vou negar que me sinto só em muitos momentos, nem que por alguns instantes já pensei em entregar os pontos. Vem uma vontade de gritar forte, de correr para bem longe, de revoltar-me contra tudo apenas para extravasar essa energia. Uma energia tão intensa quanto este lugar.

Nesses instantes, quando a esperança falha, sinto que é a Fé que me testa. É quando um delírio se apossa. Acompanho uma outra fase tentando entrar em ação e tomar forma. Batimentos ficam mais nítidos. Uma raiva entrando em ebulição. Um aperto sufocando no peito. As veias dos braços engrossando e o olhar almejando mira. A mente está envenenando-me. A mesma fraqueza humana que antes clamava um nome, agora o pragueja. O mesmo mar calmo de antes, agora quebra em ondas bravias. É a tal energia buscando caminhos! Aí me recordo que estou num deserto e não há com quem duelar. Peço perdão... Lembro-me que a prova era pessoal e solitária, e uma evolução me esperará na outra ponta desta transição. Aquieto-me então. Travo a mandíbula. Cerro os punhos. E a marcha retoma seu ritmo, até o próximo momento de loucura.

Já em outra fase, mais calmo, persisto por saber que esse caminho difícil que atravesso, outros também já trilharam e nem por isso deixaram de caminhar. Persisto ao pensar nas pessoas que realmente me importam. Persisto ao me lembrar de valores pessoais, de vitórias e conquistas passadas. Persisto, por incrível que pareça, porque num deserto só o que importa mesmo é o quão forte somos internamente. Os maiores obstáculos dessa travessia não testam nossos limites físicos, mas sim os psicológicos. Nossas emoções, nossos sentimentos, nossas esperanças, nossa fé são postos à prova.

Num deserto, que talvez você possa estar nesse momento, que tudo parece não ter sentido, que nada a tua volta pode dar garantia de sobrevivência, lembre-se de escavar dentro de si, pois existirá um oásis. E difícil encontrá-lo, eu sei, mas esse terá água inesgotável. Acredite.


sábado, 14 de junho de 2014

segunda-feira, 2 de junho de 2014

A ORIGEM DA DEPRESSÃO



Tenho ouvido cada vez mais a palavra Depressão. Como se uma sensação do que seria essa palavra estivesse sobrevoando ao meu redor num círculo que vai se fechando gradativamente, muito próximo de me tocar. Uma sensação que não vem de mim, mas chega até mim por vir de pessoas bem próximas. Ao olhar para essas pessoas vejo em seus olhos tristeza. Mas é outro tipo de tristeza, é como uma falta de energia, é quase um desespero. Parecem-me perdidas em seus próprios sentidos, como se não suportassem as próprias sensações! Acho muito estranho isso e me assusta ver tantas pessoas assim. Para mim a depressão é um fenômeno muito curioso, pois acredito que somos feitos para suportar qualquer sensação. Temos estruturas para lidar com a intensidade gerada pelo jogo de forças que é a vida, porque é um jogo de forças do qual fazemos parte. Mas acredito que os nossos novos hábitos contemporâneos têm nos enfraquecido. A nova realidade, trazida com a modernidade, está nos enfraquecendo gradativamente.

No passado, sabia que uma ou outra pessoa estava com depressão. Não era algo muito natural. Muito pelo contrario. Eu ouvia mais pessoas desconhecidas comentarem sobre casos assim e sempre com espanto e preocupação. Saber que alguém estava com depressão era uma notícia vinda de longe, distante de nosso convívio. Muitas vezes alguém que nem sequer conhecíamos. Hoje a notícia vem do nosso trabalho. Há um caso na vizinhança; outro na família. Outro na escola, na faculdade. Estão estampados nas revistas. Ouvimos diariamente na televisão; na roda de conversas com amigos; na roda de conversas de estranhos. As vezes é uma sensação que chega a assustar a nós mesmos... Bate uma aflição e já vem o alerta: será?! O mais espantoso é que já não mais vejo as pessoas falando sobre essa doença com preocupação. É uma notícia qualquer! Apenas mais uma pessoa deprimida. Fraca. Distante do jogo de forças. Aliás, nós chegamos ao ponto de comentar sobre catástrofes sem sequer esboçarmos algum sentimento forte. Tornamo-nos frios. Insensíveis. E fracos! Uma insensibilidade – para não escrever: fuga de sensibilidade – que nos tornou presas fáceis para a depressão!

Acredito que a depressão é uma filha bastarda da modernidade com a capacidade humana de lidar com os conflitos. Capacidade que está intimamente ligada aos sentidos físicos. Ao meu ver, a depressão se configura na fraqueza de um indivíduo perante o jogo de forças da vida – do qual fazemos parte – e está invariavelmente ligada às transformações e evoluções que o homem têm criado desde sempre. Quanto mais avançou a tecnologia, proporcionalmente enferrujou essa capacidade, e à ela devemos nossa existência. Precisamos sentir! A tecnologia acabou nos “desconectando” desse jogo de intensidades ao nos habituar a não sentirmos, consequentemente nos enfraquecendo, nos deprimindo. Essa é a minha tese para a origem da depressão: a própria modernidade.

Não mais permitimos às crianças trepar em árvores, brincar em grama, conversar olhando nos olhos (nós também perdemos esse hábito), porque hoje tudo é via virtual. E o que os pais fazem é não ousar frustrar os filhos, assim dão a eles tudo o que a tecnologia oferece. A tecnologia se encarrega da criança. Brincadeiras online. Desafios online. Livros, estudos, pesquisas, conversas, interação, tudo – e todos – online. É como se tivéssemos atravessado o espelho para um mundo virtual, que parece bastante “movimentado” (e movimento é sinônimo de vida), mas que na verdade se resume a tempo, quantidade, códigos vazios... E as sensações? E o sentir físico? O embasamento da globalização é a virtualidade, e nós estamos utilizando a virtualidade como fuga de sensações. Mas não todas as sensações, apenas as difíceis; as dolorosas; as complexas. A gente quer apenas sensações que sejam simples, prazerosas e que consigamos dominar. O problema é quando não conseguimos...

A vida é extremamente intensa, não podemos negar isso. As sensações são verdadeiras lâminas que nos atravessam e lidar com elas não é fácil. Mas é preciso! Somente lidando com as contradições e os conflitos da vida que verdadeiramente vivemos. O contrário disso são fugas. Toda vez que nos medicamos para aliviar algum conflito nos desconectamos do todo. Quando fugimos do cara a cara; quando abusamos de vícios e prazeres; quando buscamos escapes. A modernidade traz ao homem a tecnologia de que ele precisa para viver melhor, mas ele a aproveita para anestesiar suas crises pessoais. Essa é a origem da depressão! A tecnologia, substituindo a religião, tornou-se um novo ópio, que, mal utilizada, faz as pessoas viverem na superfície de suas vidas, escondendo-se de si mesmas, nunca chegando a tocar estágios mais profundos e necessários. Ao invés de estarem se protegendo - como acreditam estar -, estão se enfraquecendo! E cedo ou tarde vem algum problema maior, que consegue transpor essa superfície, e então surge uma depressão. A pessoa, desacostumada de sentir plenamente, agora se enfraquece por não saber lidar com as próprias emoções.

Não sou contra a internet. É inútil ser contra a modernidade, porque é um fenômeno natural da evolução humana. O tempo passa e o homem modifica o seu entorno. Aperfeiçoa-o. A questão não está na luta contra ou a favor à tecnologia, mas em utilizarmos a tecnologia para vivermos melhor, e não para fugirmos da vida e consequentemente nos deprimirmos.


Cena do filme Equilibrium (2002):


domingo, 4 de maio de 2014

O Mercado de Notícias


"O Mercado de Notícias" debate critérios jornalísticos, e este é o seu sentido e o sentido da peça de Jonson. É também uma defesa da atividade jornalística, do bom jornalismo, sem o qual não há democracia."

Jorge Furtado
Diretor e Roteirista

quinta-feira, 1 de maio de 2014

The East



O Sistema, título no Brasil.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Um encontro Criador


A criação de Adão, Michelangelo Buonarroti

"De repente, não mais que de repente."...


De repente, em meu quarto, ouvindo músicas de Kid Abelha e Capital Inicial, me vem uma sensação familiar angustiante. É um medo do futuro, um misto de ansiedade e expectativas brigando aqui dentro. Ao ouvir a palavra "novo" vinda de um daqueles comercias transmitidos no começo de vídeos do Youtube, me dá um gelo no estômago. "Novo" me lembrou diferente, fora de controle, impossível. Uma sensação paralisante...

Posso até estar errado, mas tenho a impressão de que em situações assim entramos em contato com nós mesmos. E não há para onde fugir, ou encaramos, ou reprimimos.
O motivo de nos incomodar esse encontro é pelo fato de nos vermos longe de um pedestal intocável e sem a capa indestrutível que ficamos no dia a dia. Nos encontramos nus, assustadoramente pequenos, que é como realmente somos. Ao contemplar a vida nós percebemos isso.
Sendo assim tão pequenos, acredito que uma sensação de expectativa, de esperança, de ambição venha também do fato de sermos frágeis perante à Vida, só o que nos resta neste momento é crescer. O céu é o limite. Acredito então que o ser humano precisa tocar a sua humanidade e constatar a sua fragilidade para encontrar a sua grandeza; perceber que após chegar ao seu limite físico, ele é capaz de criar, de se reinventar, e evoluir para estágios ilimitados.

Vivemos cercados de pensamentos, pessoas, de sons e imagens que não damos a atenção necessária a nós mesmos. Não nos apercebemos durante o processo. Não nos atrevemos a perguntar quem somos, o que somos; onde estamos no meio dessa bagunça toda? Acho que questionamentos assim são importantes para saber se estamos indo na direção de onde queríamos, ou se estamos sentindo a vida efetivamente por exemplo. Prazerosamente. Percebo que em momentos de crise, de solidão, de sensação de vazio, cada pensamento expande na mente. As sensações explodem no corpo. Os sentidos potencializam. Enquanto o corpo arde, a mente fervilha. Momentos assim são decisivos e antecedem vida e morte. Para mim vida seria essa angústia traduzida em qualquer movimento motivador/criador e morte a anulação/suicídio desse processo (o pior tipo ainda, quando a pessoa permanece viva).

Acho que a partir do encontro do homem com ele mesmo, ele sempre se sentirá incomodado com a sua própria natureza contraditória e conflitante, porque por um lado - a nível espiritual, quântico, no pensamento - ele alcança a grandiosidade, e por outro lado - a nível humano, material, no corpo - ele se percebe limitado e pequeno. Por isso viver efetivamente a vida, para nós animais racionais, pode ser terrivelmente dilacerante. A partir desse bolo intenso de energias em conflito (e em marcha), ou poderá haver um subproduto extremamente criativo ou um suicídio - de ideias, de sonhos, de sabe-se lá o que mais...
Quantas vezes você já se suicidou assim na vida?



Eu acho incrível como durante esses encontros certas coisas ganham tamanha importância. Neste momento em que escrevo por exemplo, ouço Primeiros Erros do Capital Inicial, logo após ouvir Lágrimas e Chuva do Kid abelha, e outras muitas anteriormente; sinto uma brisa fria que prenuncia a chegada do inverno daqui a poucos meses e o cheiro de alguém cozinhando algo. Sinto todos os sentidos muito bem. O encontro dos meus pensamentos, com essa brisa no rosto vinda da janela aberta, esse cheiro e o som dessas canções me trazem uma sensação indescritível. Angustiante e inspiradora. Se é possível se drogar apenas com o fato de sentir a vida, estou dentro!

É possível sim nos extasiarmos a partir de nada praticamente, só é preciso percebermos isso. Temos dificuldade de nos encontrar conosco, porque nos esbarramos em muitas coisas no caminho. Entre nós e nós mesmos há sempre tantas coisas atapetando o encontro, distrações que nos tiram o instante; o presente; a percepção; sensação do aqui e agora, que é criadora. Precisamos encurtar cada vez mais a distância entre nós e nós mesmos, afim de alcançarmos estágios mais elevados.
Por isso o desenvolvimento de sensibilidade estética acaba sendo tão importante quanto respirar e nós nem se quer nos damos conta disso. Precisamos potencializar essa sensibilidade estética, desenvolver a nossa capacidade de contemplar a vida a qualquer instante, a partir de qualquer situação, tragando pelos sentidos e gerando subprodutos criativos, ideias inovadoras, mais conflitos, mais movimento!

Momentos angustiantes são provenientes do nosso encontro com nós mesmos, da face humana com a face criadora, e não devem ser encarados como algo ruim, que precisa ser temido, ignorado ou extinguido até, e sim convertido em mais força, em mais movimento, porque parafraseando Lavoisier, na natureza nada se perde - nada se finda -, tudo se transforma!

 
Soneto de separação
(Vinicius de Moraes)
Inglaterra , 1938

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma 
E das bocas unidas fez-se a espuma 
E das mãos espalmadas fez-se o espanto. 

De repente da calma fez-se o vento 
Que dos olhos desfez a última chama 
E da paixão fez-se o pressentimento 
E do momento imóvel fez-se o drama. 

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante 
E de sozinho o que se fez contente. 

Fez-se do amigo próximo o distante 
Fez-se da vida uma aventura errante 
De repente, não mais que de repente.

Oceano Atlântico, a bordo do Highland Patriot, a caminho da Inglaterra, setembro de 1938

quinta-feira, 17 de abril de 2014

domingo, 6 de abril de 2014

Quem domina: mente ou corpo?


Vitruve Luc Viatour, Da Vinci


O blog está comemorando 06 anos!

Há seis anos, nos primeiros passos de elaboração desse espaço, apesar de ainda não ter uma ideia muito clara de qual seria a sua finalidade, lembro-me que aos valores centrais que o basearia eu queria objetividade, deveriam ser por mim respeitados para sempre; uma espécie de base em que sempre me apoiaria não só para escrever, mas também me cobraria ao viver a minha vida. Como um mantra até. Daí o link com o budismo, foi dado o nome ao blog: Tibet.

Na criação desses valores, após pensar um pouco sobre a minha vida, percebi que havia, nessa época, um descompasso muito grande entre os apelos da minha mente e do meu corpo. Eu tinha a nítida percepção que os dois não se comunicavam muito bem; percebia isso pelas consequências das minhas ações. O corpo sempre superava a mente. Eu era passional demais e vivia as experiências de forma materialista, seguindo apenas estímulos físicos, e eles dominavam todas as situações. Viver sem pensar no que estava fazendo foi muito intenso e prazeroso; curti a vida com aventura e liberdade mesmo - diria com indisciplina também -, mas, da mesma forma que o êxtase foi muito grande, houve tombos épicos! Então criei um certo receio de sentir adrenalina, pois percebi que quando os ganhos eram altos, os riscos eram igualmente elevados - e refletindo bem, nem sempre valeriam a pena corre-los.

Paralelo a esses acontecimentos pessoais - reflexões, balanços e descobertas - foi o período de germinação desse blog. Durante a elaboração dele buscava equilíbrio, então resolvi batizá-lo com uma filosofia extraída da famosa citação latina, derivada da Sátira X do poeta romano Juvenal: mens sana in corpore sano ("mente sã em corpo são"). Tomei a liberdade de "traduzir" isso para a minha vida, a partir dali, como: "um corpo são seria proporcionado por uma mente sã". Atribui então o controle dos meus passos apenas à razão, anulando por completo as emoções e os sinais físicos, deixando assim o corpo apenas como uma mera máquina a seguir os comandos da mente; ele teria uma importância secundária no alcance deste equilíbrio.
Os ganhos me pareceram a princípio maiores. Tive a impressão de que avançava muito mais rapidamente, pois não desperdiçava atenção, não me distraía com nada; olhava para frente, tinha um ideal na mente e anulava tudo ao meu redor - incluindo a mim mesmo. Tirava ótimas notas, ganhava aumento de salário e promoções, me sentia um foguete - usando minha própria vitalidade como combustível! Quando a rápida ascensão assentou vieram a dores: física e psicológica. Dores de cabeça e nas costas não são nada comparadas a uma dor psicológica; então um arrependimento começou a espreitar...

Após superado esse período difícil - e quem acompanhou o blog deve tê-lo notado -, compreendi que nunca existiu de fato uma relação de poder entre essas duas grandezas, e sim de simbiose! A mente não desautoriza os sinais físicos, a capacidade do corpo de se comunicar conosco, nem ele se sobressai à razão através de desejos e necessidades. O que deve existir é uma parceria entre ambos; a fusão dessas duas grandezas gera uma terceira, o equilíbrio. Ao agirmos motivados por uma vontade efêmera, sem racionalizar esse desejo, mesmo na busca de prazer pessoal, podemos ser cruéis com algumas pessoas; e quando colocamos o corpo a serviço da razão unicamente, como máquina, passivo, em algum momento podemos ser cruéis com nós mesmos. Ninguém domina, a redundância se vale: o equilíbrio é o meio termo.

A mensagem deste post é para lembrar que somos animais racionais, e não selvagens; somos constituídos de um corpo com uma mente - e estão ligados! Não há divisão entre corpo é mente, há simbiose.
Seja amigo de si mesmo. Não trate o seu corpo como máquina através de comandos severos e obrigações o tempo todo, pois não somos androides, somos sociáveis e é preciso relaxar também. A contra partida, não queira viver fazendo só o que te dá vontade, impulsiva e irracionalmente, porque limites são importantes, e algumas regras e convenções são estabelecidas para o nosso próprio bem.
Ao perceber que está agindo seguindo somente seus desejos e necessidades e se concluir que está tomando decisões impulsivamente, procure pensar melhor a respeito e refletir em possíveis implicações de agir assim, e se valerá a pena.
Ao notar que está constantemente exigindo demais de seu corpo e esquecendo de considerar sinais físicos básicos (como cansaço, dor, fome, calor, frio, sono, prazer), cuidado com uma autossabotagem, ou seja, a doença - quem não para por bem, parará por mal.


Aquele que viver só no plano mental, esquecendo de necessidades e de desejos do próprio corpo, ou perderá em humanidade ou em saúde; aquele que viver só no plano material, esquecendo de refletir e de valores espirituais, ou se tornará violento ou será vítima de si mesmo.

Qual você escolhe?! Será que precisa escolher?

domingo, 2 de março de 2014

Estrangeiro



La Liberté guidant le peuple, Eugène Delacroix

O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”. (Martin Luther King)


Tenho muita dificuldade em definir a mim mesmo o que é ético, o que não é; o que na verdade seria moral, ou imoral. Nunca sei plenamente se é correto responder a verdade diante de uma pergunta me feita. Imagino se a pessoa espera de fato a verdade. Não a sua verdade – a que quer ouvir, a que conforta os seus interesses, ou os da maioria, mas a que condiz com o que realmente penso. Nunca descobri o limite entre expôr de mais ou de menos; me expôr mais, ou me expôr menos... E me incomoda pensar sobre isso; me faz sentir diferente. Quem tenta sair do padrão e termina taxado.

O que me espanta mesmo é uma sensação de me sentir estrangeiro em terra natal. Observar como tomamos como certo coisas que são descaradamente erradas – conscientes. A questão é que se incomodar parece pior. O relativismo no político/social/corporativista garante maior sobrevivência. Quase uma legitimidade predatória. Relativamos tanto a verdade, a honra, a ética ao ponto delas se diluirem em meio aos nossos próprios interesses. Ser transparente virou sinônimo de não ser político. Falar a verdade tem hora. E ser honesto não combina numa negociação. É preciso ser calculista, ter cartas na manga, e “palavras flexíveis”. Não é permitido se colocar muito também (a menos que isso não desagrade ninguém).

Assim nos tornamos pessoas que respondem apenas o óbvio. Sorrimos simpáticos e parecemos íntimos de quem no fundo nem apreciamos. Aplacamos sonhos, vestimos máscaras e adentramos passivamente na roda, acompanhando o rebanho. E nos matamos um pouco por dia.
Para onde estamos indo? Quais perspectivas temos? Desconheço quais são os princípios e valores que conjugam esse momento atual. No passado existia verdadeiramente uma coisa chamada Palavra, que remetia à honra de um homem. Dois homens selavam um compromisso através de fios do bigode, mais nada. E por incrível que pareça bastava. Não eram necessários contratos, assinaturas, e nem testemunhas. Hoje se você fizer isso é logrado na certa. Um homem não sustenta mais sua afirmação, se algo por escrito, que leve sua assinatura, não o lembrar disso. Ou seja, um papel precisa lembrá-lo de que ele é um homem (no sentido ético da palavra). Mas o que é ética mesmo? Ah! Mas quem se importa?!

Eu me importo! Me incomodo. E me espanto diariamente. Nem acredito que tudo acontece debaixo do nosso nariz. Nossa educação em casa é frouxa, na escola alienada e na sociedade psicopática. Em casa educamos os filhos, não para serem sensíveis e inteligentes, mas para serem fortes e espertos (o que leva uma conotação bem diferente), não mostramos limites nem punimos maus atos. Na escola castramos qualquer senso crítico e sabotamos cidadania. E na sociedade aprende-se apenas os atalhos do curso, quem são os “cabeças” da pólis e como obter as armas necessárias. Onde estamos errando? - é o que me pergunto toda vez que ouço nos noticiários que uma criança cometeu um crime. Ou uma mãe abandonou o filho num hospital. Roubos, assassinatos, violência, delitos que, praticamente, têm nos obrigado a nos conformar com a realidade atual. Só que aquele que acomoda-se com essa realidade não pode reclamar de futuro, porque é conivente. Uma realidade como a de hoje, baseada em valores psicopáticos, só pôde se estabelecer tanto tempo tendo havido um conluio coletivo. Todos somos, de alguma forma, em maior ou menor grau, cúmplices! E isso deveria nos causar muita vergonha e nos incomodar bastante. E nem de longe isso é exagero.

Precisamos resgatar alguns valores antigos que, do meu ponto de vista, jamais deveriam se perder, independente do quão a sociedade avance. Honra. Fraternidade. Ética. Justiça. Coragem. Desabituarmos-nos dessa mania de ficar procurando muitas vezes razões para tentar justificar o injustificável. Ao invés disso, prestar mais atenção à formação das gerações. Pais atentarem-se em dar uma educação com mais limites e diálogo; professores uma educação que estimule a criatividade e a vontade de pensar e as pessoas de bem se unir, pois como bem diz a médica psiquiatra autora de diversos livros, Ana Beatriz Barbosa Silva, “o mal é muito unido!”.



domingo, 23 de fevereiro de 2014

ENERGIA X CONTEMPORANEIDADE



Toda mudança positiva - todo salto para um nível maior de energia e consciência - envolve um ritual de passagem. A cada subida para um degrau mais alto na escada da evolução pessoal, devemos atravessar um período de desconforto, de iniciação. Eu nunca conheci uma exceção.” (Dan Millman)


Tudo no mundo é feito de energia, inclusive nós mesmos. Quando acordamos, levantamos e fazemos as tarefas diárias somos movidos por energia. Quando falamos, quando brigamos, quando trabalhamos, quando comemos, até quando parados, tudo o que fazemos é impulsionado por energia. Acredito que a quantidade dela pode variar de uma pessoa para outra, mas o controle e a canalização dela fazem toda a diferença na manutenção de uma vida mais saudável, e eles só podem ser obtidos mediante consciência e reflexão sobre os próprios atos. Sobre essa energia. Mas a gente não a percebe; a gente nem se percebe.
A sociedade contemporânea globalizada, mesmo trazendo muitos benefícios à humanidade – benefícios materiais em grande parte –, tem prejudicado sorrateiramente o bom fluir dessa energia nas nossas vidas, o que tem gerado os grandes males da atualidade: ansiedade, pânico, impulsividade, obesidade, depressão, compulsões, e por aí vai.

A sociedade que vivemos é caracterizada por exigir de nós reações muito rápidas a estímulos que têm vindo muito rapidamente também, e isso impossibilita algo extremamente necessário para que não haja desperdício ou uma sobrecarga energética: a pausa para reflexão – ter a consciência dos nossos próprios atos, para avaliar consequências. O espaço entre as demandas externas que chegam diariamente e as respostas que precisamos dar está sendo cada vez mais curto; não tem dado tempo para que o pensamento racional entre em ação; ao invés disso reagimos impulsivamente automaticamente. A Dianética fala sobre isso como Mente Analítica e Mente Reativa. A Neurociência fala em Sequestro da Amígdala Cerebral. Seja o nome qual for, o princípio é o mesmo: ações sem a percepção do que está sendo feito, e por quê. É o caso do obeso – que as vezes nervoso, ansioso, triste – desconta na comida e não percebe a quantidade do que está ingerindo. Ou o compulsivo em compras que acaba se endividando facilmente. Ou aquele que por impulsividade age primeiro; fala, grita, prejudica-se, e depois se arrepende. Pessoas sobrecarregadas com estresse que não conseguem dar vazão às próprias demandas e acabam surtando. Pessoas se vitimizando por uma situação, quando são incapazes de perceber que os seus próprios atos culminaram para o acontecido. Não enxergam isso! Realmente não conseguem. Volto a repetir, porque até a nossa percepção da realidade está alterada. Para nós a realidade parece mais rápida do que o pensamento consegue acompanhar e até a nossa percepção de tempo está alterada; a gente percebe-se sempre com menos tempo do que o necessário, como se o tempo passasse mais depressa.

Toda essa problemática do meu ponto de vista começa já na fase escolar. Se disciplinamos nossas crianças e nossos adolescentes para reproduzirem conteúdos e não educamos para a criação de novos, se impomos a memorização de dados e não incentivamos uma reflexão sobre a realidade e um pensamento crítico, de que forma, mais tarde quando adultos nessa sociedade contemporânea, eles saberão responder às demandas? A resposta é que eles não saberão. Essa é a nossa problemática atual. Nós somos incapazes de pensar sobre a vida com um olhar amplo e um pensamento crítico; o que nós temos a oferecer são respostas prontas. Comportamentos irracionais. Mecânicos. Quando estamos com um problema nos angustiando, ao invés de refletirmos sobre esse incômodo, preferimos comprar, comer, beber, tudo para fugir da realidade. Quando precisamos ter atitude frente uma situação, ou reagimos impulsivamente e depois pensamos sobre o que fizemos, ou paralisamos e nada fazemos. Não tem meio termo. Não tem racionalização. É como a cobra que come o próprio rabo! 


Acredito que este problema atual é mais sério do que qualquer política pública conseguirá resolver facilmente. É um problema de estruturas psíquicas. Comportamentos muito enraizados. Eu acho que quisemos tanto um dia fabricar um cidadão pacato e passível de controle, como esse que vive na sociedade atual, e conseguimos! Vemos uma sociedade hoje imatura politicamente, que quando tenta revindicar alguma coisa termina extrapolando e gerando mais violência. Só que nós não podemos reclamar agora. O projeto não foi esse? Não queríamos uma massa assim? Se agora queremos mudar, se agora queremos uma sociedade forte, matura politicamente, precisamos mudar métodos! Fazer tudo o que deixamos de fazer até hoje. Oferecer uma educação de qualidade que atinja a todos com igualdade, e que privilegie a criatividade e o pensamento analítico. Dar suporte psicológico, médico, social. E por que não espiritual?! Demonstrar assim que a vida é mais do que tudo isso. Devemos fazer o que deveríamos ter feito. Do jeito certo. E isso vai demandar tempo. E resultados aparecerão a longo prazo. Será que podemos esperar? Só que quanto mais demoramos também, menos tempo temos...





" Ó, vós, na possessão de tão robustos intelectos... observai os ensinamentos que se escondem... sob o véu destes estranhos versos." (Dante Alighieri)