segunda-feira, 28 de julho de 2014

Benu



“Assim, cortando o céu, voa ligeiro, 
Entre os mundos e mundos navegando,
Ora os ventos polares enfrentando,
Ora cortando, calmo, o róseo espaço,
Até que alcança as altaneiras águias.
Crêem ver nele as aves uma fênix
Que cortasse os espaços, solitária,
Em procura da Tebas egipciana,
Para os restos mortais no radioso
Templo do Sol guardar”
(Paraíso Perdido, John Milton)

quarta-feira, 23 de julho de 2014

POR TRÁS DE OLHOS AZUIS


Ela gesticulou brava, gritou, e por um segundo perdeu a cabeça. No outro dia, lágrimas nos olhos e um pedido de desculpa. “É o meu jeito”, disse ela envergonhadamente. Eu, apenas observava intrigado a cena. E o que é pior, sinceramente acreditando na natureza inocente dos seus atos...

Inocente. É com essa palavra que começo o post. E é com o seu significado que me defenderei para escrevê-lo. Sempre fui fascinado pela natureza das coisas. Parte simples, pura. Não pura de imaculada ou de divina. Pura de sem retoques. De primitiva. Componente de fábrica mesmo. Aquilo que veio com a gente na bagagem desde sempre.

Uma vez, ouvi uma fábula de um escorpião e um sapo. O escorpião queria atravessar de uma margem à outra de um rio e pediu ajuda ao sapo. Pediu ao sapo para atravessá-lo em suas costas. O sapo ressabiado disse-lhe: “você vai me picar”. E o escorpião jurou que não. O sapo concordou e o levou então. E no caminho ele o picou. Mas antes de afundarem o sapo disse-lhe: “você é tolo, agora ambos morreremos!”. “Eu sei, e sinto muito, mas você conhecia minha natureza”, falou o escorpião.
Achei essa fábula inquietante. E sempre que me deparava com ela ficava incomodado. Com o passar dos anos, lendo o livro A Cura Quântica, do Deepak Chopra, encontrei outra versão dessa estória, que completou o seu significado e me alegrou muito mais. Nessa versão havia dois homens e um escorpião. Um deles assistia o outro, que era muito sábio, tentando insistentemente ajudar um escorpião a subir numa calçada e este sempre picava-lhe às mãos. Foi então que, de tão intrigado, ele perguntou-lhe: “por que insiste em ajudá-lo se ele só te pica?!” O sábio sorriu e disse: “mas a sua natureza é picar, a minha é salvar”,

Achei a segunda estória muito linda, porque o sábio não lutou para compreender az razões do escorpião. Tampouco viu perversidade nisso. Ele apenas aceitou a sua natureza sem racionalizações. E impôs a sua. Permitiu que o escorpião fosse aquilo que é, sem expectativas. E isso não lhe ocasionava sofrimento algum. Penso desde então na moral dessa fábula. Ela me lembra de olhar para as pessoas aceitando aquilo que vem com elas de fábrica, sem pesar. Eu sei que estou entrando num campo polêmico entre os sociólogos, os psicólogos e os psiquiatras até. O homem nasce bom e a sociedade o corrompe, como disse Rousseau, ou, de acordo com os mais recentes estudos, há um componente genético ao caráter?

Eu particularmente acredito que o meio influencie, inibindo, instigando ou modulando até, mas tem coisa que já vem de fábrica. Pronta. Podem falar o que for, mas todos nós conhecemos casos de indivíduos que cresceram em famílias bem estruturadas, foram bem educados, eram socialmente equilibrados, eram produtivos profissionalmente e de repente, não se sabe bem o porquê, cometeram uma barbárie. Pais se perguntando onde erraram. Professores se perguntando o que aconteceu. Amigos se perguntando como nunca perceberam nada. Simplesmente acontece.
Existem também os casos de indivíduos que nunca na vida tiveram contato com música, por exemplo, e no entanto tocam divinamente. Aqueles que nunca tiveram uma aula de dança sequer e surpreendem até profissionais da área. Pessoas intelectualmente brilhantes e cognitivamente avançadas, que mal frequentaram escolas, que cresceram em ambientes caóticos, com grande tendência à marginalidade e no entanto despontaram na sociedade com dignidade. Talentos. Dons. Habilidades específicas. Capacidades instintivas. Acontece.

Quando eu era criança me lembro que preferia dias chuvosos aos ensolarados. Dias nublados então eram os melhores. Dias assim me faziam pensar melhor. Achava bonito paisagens de amanhecer e pôr do sol no mar, mas adorava muito mais assistir, em dias tempestuosos, os raios no céu, os granizos no chão, a força das águas nas calçadas e dos ventos nas árvores. Tudo bem que nos dias seguintes a essas chuvas ficavam marcas. Rastros de destruição. Mas não se podia culpar a natureza, por ser a natureza. Concordo, sim, que historicamente a mão do homem interferiu no clima, modificou e agravou os cenários, mas na natureza sempre houve desequilíbrios violentos. A vida em si é violenta. Nós cometemos violência com nós mesmos todos os dias. Quando cortarmos as unhas e os cabelos ou quando nos depilarmos. Ao fazermos cirurgias plásticas. E durante dietas. Quando reprimimos desejos, afim de potencializar outros. São verdadeiros cortes que nos fazemos, podas que de certa forma são violências. Mas é justamente aí que quero entrar, que é o ponto principal do post: o homem solitário podia ser selvagem, mas quando escolhera viver entre outros estabeleceu normas para o convívio harmonioso. Para haver civilidade. Assim foi preciso policiar a nossa natureza individual para não ferir o grupo. Ainda mais nos ambientes profissionais. Mas a questão é: até onde o grupo tem o direito de decidir quais comportamentos individuais deverão ser aceitos? E mais, até onde somos capazes, individualmente falando, de controlar tais comportamentos?

Sinceramente, eu não sei se tenho essa resposta. Mas é o que tenho me perguntado ultimamente. E me incomodado também. Principalmente quando assisto certos julgamentos. As vezes observo julgamentos, julgamentos severos, a pessoas que dão o máximo de si e só não alcançam mais porque a sua natureza limita. Uma natureza específica. Vou me utilizar como exemplo. Eu sou introvertido. Posso até tentar ser mais aberto, ser mais receptivo, um pouco mais comunicativo, mas extrovertido, extrovertido mesmo, não serei. Não me seria fácil. E sei o quanto pode ser difícil também para uma pessoa extrovertida e inquieta, parar algumas horas para escrever um texto como este. O que para mim está sendo fácil. Da mesma forma que a Amazônia tem a sua beleza, o Saara tem a dele. E não se pode esperar o clima de um no outro. Vai contra a natureza. A gente precisa então mudar o nosso olhar.

Existem diferentes formas de se existir nesse mundo, que é também de diferentes formas. Não quero relativizar leis, códigos éticos ou morais. Mas todo cuidado é pouco. Certos julgamentos são muito incisivos. Hoje tenho noção que muitas das minhas decepções tiveram mais a ver com o meu ego e com o meu orgulho, do que com qualquer outra coisa. Se eu não esperasse tanto da vida e de certas pessoas, se eu não julgasse tanto e procurasse mais ver o lado bom em como as coisas são, sem idealizações, tudo teria sido tão mais simples.

Esse é o nosso grande desafio. No fundo a vida é como um grande espelho, que precisamos enxergar além das nossas aparências refletidas nele.

sábado, 12 de julho de 2014

O Homem. O animal. E suas fases de lua



"Iluminar para sempre... Iluminar tudo... Até os últimos dias da eternidade... Iluminar e só... Eis o meu lema, e o do sol..."
(Vladimir Mayakovsky)


Tenho enfrentado um momento intimamente difícil. Intenso. E estranhamente me sinto mais forte. Sinto como se atravessasse um longo deserto. E já faz tempo que o comecei. Porém, como disse antes estou abastecido, mais preparado para atravessá-lo desta vez. Desisti de lembrar se busquei esse caminho ou se foi ele que me encontrou. Seguir em frente é o lema. Seguir em frente acaba sendo sempre um lema para mim... Olho para o céu estrelado sob minha cabeça, vejo um azul escuro intenso cravado de diamantes, ouço um silêncio familiar, então me lembro que em algum lugar Alguém me observa e confia numa superação muito mais do que eu.
Durante o dia, o sol arde na pele e o suor escorrega enquanto caminho rapidamente. À noite as lágrimas queimam no rosto frio enquanto os pensamentos se perdem no espaço buscando um oásis que ainda não conheci. Mas vai existir! Não vou negar que me sinto só em muitos momentos, nem que por alguns instantes já pensei em entregar os pontos. Vem uma vontade de gritar forte, de correr para bem longe, de revoltar-me contra tudo apenas para extravasar essa energia. Uma energia tão intensa quanto este lugar.

Nesses instantes, quando a esperança falha, sinto que é a Fé que me testa. É quando um delírio se apossa. Acompanho uma outra fase tentando entrar em ação e tomar forma. Batimentos ficam mais nítidos. Uma raiva entrando em ebulição. Um aperto sufocando no peito. As veias dos braços engrossando e o olhar almejando mira. A mente está envenenando-me. A mesma fraqueza humana que antes clamava um nome, agora o pragueja. O mesmo mar calmo de antes, agora quebra em ondas bravias. É a tal energia buscando caminhos! Aí me recordo que estou num deserto e não há com quem duelar. Peço perdão... Lembro-me que a prova era pessoal e solitária, e uma evolução me esperará na outra ponta desta transição. Aquieto-me então. Travo a mandíbula. Cerro os punhos. E a marcha retoma seu ritmo, até o próximo momento de loucura.

Já em outra fase, mais calmo, persisto por saber que esse caminho difícil que atravesso, outros também já trilharam e nem por isso deixaram de caminhar. Persisto ao pensar nas pessoas que realmente me importam. Persisto ao me lembrar de valores pessoais, de vitórias e conquistas passadas. Persisto, por incrível que pareça, porque num deserto só o que importa mesmo é o quão forte somos internamente. Os maiores obstáculos dessa travessia não testam nossos limites físicos, mas sim os psicológicos. Nossas emoções, nossos sentimentos, nossas esperanças, nossa fé são postos à prova.

Num deserto, que talvez você possa estar nesse momento, que tudo parece não ter sentido, que nada a tua volta pode dar garantia de sobrevivência, lembre-se de escavar dentro de si, pois existirá um oásis. E difícil encontrá-lo, eu sei, mas esse terá água inesgotável. Acredite.


sábado, 14 de junho de 2014

segunda-feira, 2 de junho de 2014

A ORIGEM DA DEPRESSÃO



Tenho ouvido cada vez mais a palavra Depressão. Como se uma sensação do que seria essa palavra estivesse sobrevoando ao meu redor num círculo que vai se fechando gradativamente, muito próximo de me tocar. Uma sensação que não vem de mim, mas chega até mim por vir de pessoas bem próximas. Ao olhar para essas pessoas vejo em seus olhos tristeza. Mas é outro tipo de tristeza, é como uma falta de energia, é quase um desespero. Parecem-me perdidas em seus próprios sentidos, como se não suportassem as próprias sensações! Acho muito estranho isso e me assusta ver tantas pessoas assim. Para mim a depressão é um fenômeno muito curioso, pois acredito que somos feitos para suportar qualquer sensação. Temos estruturas para lidar com a intensidade gerada pelo jogo de forças que é a vida, porque é um jogo de forças do qual fazemos parte. Mas acredito que os nossos novos hábitos contemporâneos têm nos enfraquecido. A nova realidade, trazida com a modernidade, está nos enfraquecendo gradativamente.

No passado, sabia que uma ou outra pessoa estava com depressão. Não era algo muito natural. Muito pelo contrario. Eu ouvia mais pessoas desconhecidas comentarem sobre casos assim e sempre com espanto e preocupação. Saber que alguém estava com depressão era uma notícia vinda de longe, distante de nosso convívio. Muitas vezes alguém que nem sequer conhecíamos. Hoje a notícia vem do nosso trabalho. Há um caso na vizinhança; outro na família. Outro na escola, na faculdade. Estão estampados nas revistas. Ouvimos diariamente na televisão; na roda de conversas com amigos; na roda de conversas de estranhos. As vezes é uma sensação que chega a assustar a nós mesmos... Bate uma aflição e já vem o alerta: será?! O mais espantoso é que já não mais vejo as pessoas falando sobre essa doença com preocupação. É uma notícia qualquer! Apenas mais uma pessoa deprimida. Fraca. Distante do jogo de forças. Aliás, nós chegamos ao ponto de comentar sobre catástrofes sem sequer esboçarmos algum sentimento forte. Tornamo-nos frios. Insensíveis. E fracos! Uma insensibilidade – para não escrever: fuga de sensibilidade – que nos tornou presas fáceis para a depressão!

Acredito que a depressão é uma filha bastarda da modernidade com a capacidade humana de lidar com os conflitos. Capacidade que está intimamente ligada aos sentidos físicos. Ao meu ver, a depressão se configura na fraqueza de um indivíduo perante o jogo de forças da vida – do qual fazemos parte – e está invariavelmente ligada às transformações e evoluções que o homem têm criado desde sempre. Quanto mais avançou a tecnologia, proporcionalmente enferrujou essa capacidade, e à ela devemos nossa existência. Precisamos sentir! A tecnologia acabou nos “desconectando” desse jogo de intensidades ao nos habituar a não sentirmos, consequentemente nos enfraquecendo, nos deprimindo. Essa é a minha tese para a origem da depressão: a própria modernidade.

Não mais permitimos às crianças trepar em árvores, brincar em grama, conversar olhando nos olhos (nós também perdemos esse hábito), porque hoje tudo é via virtual. E o que os pais fazem é não ousar frustrar os filhos, assim dão a eles tudo o que a tecnologia oferece. A tecnologia se encarrega da criança. Brincadeiras online. Desafios online. Livros, estudos, pesquisas, conversas, interação, tudo – e todos – online. É como se tivéssemos atravessado o espelho para um mundo virtual, que parece bastante “movimentado” (e movimento é sinônimo de vida), mas que na verdade se resume a tempo, quantidade, códigos vazios... E as sensações? E o sentir físico? O embasamento da globalização é a virtualidade, e nós estamos utilizando a virtualidade como fuga de sensações. Mas não todas as sensações, apenas as difíceis; as dolorosas; as complexas. A gente quer apenas sensações que sejam simples, prazerosas e que consigamos dominar. O problema é quando não conseguimos...

A vida é extremamente intensa, não podemos negar isso. As sensações são verdadeiras lâminas que nos atravessam e lidar com elas não é fácil. Mas é preciso! Somente lidando com as contradições e os conflitos da vida que verdadeiramente vivemos. O contrário disso são fugas. Toda vez que nos medicamos para aliviar algum conflito nos desconectamos do todo. Quando fugimos do cara a cara; quando abusamos de vícios e prazeres; quando buscamos escapes. A modernidade traz ao homem a tecnologia de que ele precisa para viver melhor, mas ele a aproveita para anestesiar suas crises pessoais. Essa é a origem da depressão! A tecnologia, substituindo a religião, tornou-se um novo ópio, que, mal utilizada, faz as pessoas viverem na superfície de suas vidas, escondendo-se de si mesmas, nunca chegando a tocar estágios mais profundos e necessários. Ao invés de estarem se protegendo - como acreditam estar -, estão se enfraquecendo! E cedo ou tarde vem algum problema maior, que consegue transpor essa superfície, e então surge uma depressão. A pessoa, desacostumada de sentir plenamente, agora se enfraquece por não saber lidar com as próprias emoções.

Não sou contra a internet. É inútil ser contra a modernidade, porque é um fenômeno natural da evolução humana. O tempo passa e o homem modifica o seu entorno. Aperfeiçoa-o. A questão não está na luta contra ou a favor à tecnologia, mas em utilizarmos a tecnologia para vivermos melhor, e não para fugirmos da vida e consequentemente nos deprimirmos.


Cena do filme Equilibrium (2002):


domingo, 4 de maio de 2014

O Mercado de Notícias


"O Mercado de Notícias" debate critérios jornalísticos, e este é o seu sentido e o sentido da peça de Jonson. É também uma defesa da atividade jornalística, do bom jornalismo, sem o qual não há democracia."

Jorge Furtado
Diretor e Roteirista

quinta-feira, 1 de maio de 2014

The East



O Sistema, título no Brasil.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Um encontro Criador


A criação de Adão, Michelangelo Buonarroti

"De repente, não mais que de repente."...


De repente, em meu quarto, ouvindo músicas de Kid Abelha e Capital Inicial, me vem uma sensação familiar angustiante. É um medo do futuro, um misto de ansiedade e expectativas brigando aqui dentro. Ao ouvir a palavra "novo" vinda de um daqueles comercias transmitidos no começo de vídeos do Youtube, me dá um gelo no estômago. "Novo" me lembrou diferente, fora de controle, impossível. Uma sensação paralisante...

Posso até estar errado, mas tenho a impressão de que em situações assim entramos em contato com nós mesmos. E não há para onde fugir, ou encaramos, ou reprimimos.
O motivo de nos incomodar esse encontro é pelo fato de nos vermos longe de um pedestal intocável e sem a capa indestrutível que ficamos no dia a dia. Nos encontramos nus, assustadoramente pequenos, que é como realmente somos. Ao contemplar a vida nós percebemos isso.
Sendo assim tão pequenos, acredito que uma sensação de expectativa, de esperança, de ambição venha também do fato de sermos frágeis perante à Vida, só o que nos resta neste momento é crescer. O céu é o limite. Acredito então que o ser humano precisa tocar a sua humanidade e constatar a sua fragilidade para encontrar a sua grandeza; perceber que após chegar ao seu limite físico, ele é capaz de criar, de se reinventar, e evoluir para estágios ilimitados.

Vivemos cercados de pensamentos, pessoas, de sons e imagens que não damos a atenção necessária a nós mesmos. Não nos apercebemos durante o processo. Não nos atrevemos a perguntar quem somos, o que somos; onde estamos no meio dessa bagunça toda? Acho que questionamentos assim são importantes para saber se estamos indo na direção de onde queríamos, ou se estamos sentindo a vida efetivamente por exemplo. Prazerosamente. Percebo que em momentos de crise, de solidão, de sensação de vazio, cada pensamento expande na mente. As sensações explodem no corpo. Os sentidos potencializam. Enquanto o corpo arde, a mente fervilha. Momentos assim são decisivos e antecedem vida e morte. Para mim vida seria essa angústia traduzida em qualquer movimento motivador/criador e morte a anulação/suicídio desse processo (o pior tipo ainda, quando a pessoa permanece viva).

Acho que a partir do encontro do homem com ele mesmo, ele sempre se sentirá incomodado com a sua própria natureza contraditória e conflitante, porque por um lado - a nível espiritual, quântico, no pensamento - ele alcança a grandiosidade, e por outro lado - a nível humano, material, no corpo - ele se percebe limitado e pequeno. Por isso viver efetivamente a vida, para nós animais racionais, pode ser terrivelmente dilacerante. A partir desse bolo intenso de energias em conflito (e em marcha), ou poderá haver um subproduto extremamente criativo ou um suicídio - de ideias, de sonhos, de sabe-se lá o que mais...
Quantas vezes você já se suicidou assim na vida?



Eu acho incrível como durante esses encontros certas coisas ganham tamanha importância. Neste momento em que escrevo por exemplo, ouço Primeiros Erros do Capital Inicial, logo após ouvir Lágrimas e Chuva do Kid abelha, e outras muitas anteriormente; sinto uma brisa fria que prenuncia a chegada do inverno daqui a poucos meses e o cheiro de alguém cozinhando algo. Sinto todos os sentidos muito bem. O encontro dos meus pensamentos, com essa brisa no rosto vinda da janela aberta, esse cheiro e o som dessas canções me trazem uma sensação indescritível. Angustiante e inspiradora. Se é possível se drogar apenas com o fato de sentir a vida, estou dentro!

É possível sim nos extasiarmos a partir de nada praticamente, só é preciso percebermos isso. Temos dificuldade de nos encontrar conosco, porque nos esbarramos em muitas coisas no caminho. Entre nós e nós mesmos há sempre tantas coisas atapetando o encontro, distrações que nos tiram o instante; o presente; a percepção; sensação do aqui e agora, que é criadora. Precisamos encurtar cada vez mais a distância entre nós e nós mesmos, afim de alcançarmos estágios mais elevados.
Por isso o desenvolvimento de sensibilidade estética acaba sendo tão importante quanto respirar e nós nem se quer nos damos conta disso. Precisamos potencializar essa sensibilidade estética, desenvolver a nossa capacidade de contemplar a vida a qualquer instante, a partir de qualquer situação, tragando pelos sentidos e gerando subprodutos criativos, ideias inovadoras, mais conflitos, mais movimento!

Momentos angustiantes são provenientes do nosso encontro com nós mesmos, da face humana com a face criadora, e não devem ser encarados como algo ruim, que precisa ser temido, ignorado ou extinguido até, e sim convertido em mais força, em mais movimento, porque parafraseando Lavoisier, na natureza nada se perde - nada se finda -, tudo se transforma!

 
Soneto de separação
(Vinicius de Moraes)
Inglaterra , 1938

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma 
E das bocas unidas fez-se a espuma 
E das mãos espalmadas fez-se o espanto. 

De repente da calma fez-se o vento 
Que dos olhos desfez a última chama 
E da paixão fez-se o pressentimento 
E do momento imóvel fez-se o drama. 

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante 
E de sozinho o que se fez contente. 

Fez-se do amigo próximo o distante 
Fez-se da vida uma aventura errante 
De repente, não mais que de repente.

Oceano Atlântico, a bordo do Highland Patriot, a caminho da Inglaterra, setembro de 1938

quinta-feira, 17 de abril de 2014

domingo, 6 de abril de 2014

Quem domina: mente ou corpo?


Vitruve Luc Viatour, Da Vinci


O blog está comemorando 06 anos!

Há seis anos, nos primeiros passos de elaboração desse espaço, apesar de ainda não ter uma ideia muito clara de qual seria a sua finalidade, lembro-me que aos valores centrais que o basearia eu queria objetividade, deveriam ser por mim respeitados para sempre; uma espécie de base em que sempre me apoiaria não só para escrever, mas também me cobraria ao viver a minha vida. Como um mantra até. Daí o link com o budismo, foi dado o nome ao blog: Tibet.

Na criação desses valores, após pensar um pouco sobre a minha vida, percebi que havia, nessa época, um descompasso muito grande entre os apelos da minha mente e do meu corpo. Eu tinha a nítida percepção que os dois não se comunicavam muito bem; percebia isso pelas consequências das minhas ações. O corpo sempre superava a mente. Eu era passional demais e vivia as experiências de forma materialista, seguindo apenas estímulos físicos, e eles dominavam todas as situações. Viver sem pensar no que estava fazendo foi muito intenso e prazeroso; curti a vida com aventura e liberdade mesmo - diria com indisciplina também -, mas, da mesma forma que o êxtase foi muito grande, houve tombos épicos! Então criei um certo receio de sentir adrenalina, pois percebi que quando os ganhos eram altos, os riscos eram igualmente elevados - e refletindo bem, nem sempre valeriam a pena corre-los.

Paralelo a esses acontecimentos pessoais - reflexões, balanços e descobertas - foi o período de germinação desse blog. Durante a elaboração dele buscava equilíbrio, então resolvi batizá-lo com uma filosofia extraída da famosa citação latina, derivada da Sátira X do poeta romano Juvenal: mens sana in corpore sano ("mente sã em corpo são"). Tomei a liberdade de "traduzir" isso para a minha vida, a partir dali, como: "um corpo são seria proporcionado por uma mente sã". Atribui então o controle dos meus passos apenas à razão, anulando por completo as emoções e os sinais físicos, deixando assim o corpo apenas como uma mera máquina a seguir os comandos da mente; ele teria uma importância secundária no alcance deste equilíbrio.
Os ganhos me pareceram a princípio maiores. Tive a impressão de que avançava muito mais rapidamente, pois não desperdiçava atenção, não me distraía com nada; olhava para frente, tinha um ideal na mente e anulava tudo ao meu redor - incluindo a mim mesmo. Tirava ótimas notas, ganhava aumento de salário e promoções, me sentia um foguete - usando minha própria vitalidade como combustível! Quando a rápida ascensão assentou vieram a dores: física e psicológica. Dores de cabeça e nas costas não são nada comparadas a uma dor psicológica; então um arrependimento começou a espreitar...

Após superado esse período difícil - e quem acompanhou o blog deve tê-lo notado -, compreendi que nunca existiu de fato uma relação de poder entre essas duas grandezas, e sim de simbiose! A mente não desautoriza os sinais físicos, a capacidade do corpo de se comunicar conosco, nem ele se sobressai à razão através de desejos e necessidades. O que deve existir é uma parceria entre ambos; a fusão dessas duas grandezas gera uma terceira, o equilíbrio. Ao agirmos motivados por uma vontade efêmera, sem racionalizar esse desejo, mesmo na busca de prazer pessoal, podemos ser cruéis com algumas pessoas; e quando colocamos o corpo a serviço da razão unicamente, como máquina, passivo, em algum momento podemos ser cruéis com nós mesmos. Ninguém domina, a redundância se vale: o equilíbrio é o meio termo.

A mensagem deste post é para lembrar que somos animais racionais, e não selvagens; somos constituídos de um corpo com uma mente - e estão ligados! Não há divisão entre corpo é mente, há simbiose.
Seja amigo de si mesmo. Não trate o seu corpo como máquina através de comandos severos e obrigações o tempo todo, pois não somos androides, somos sociáveis e é preciso relaxar também. A contra partida, não queira viver fazendo só o que te dá vontade, impulsiva e irracionalmente, porque limites são importantes, e algumas regras e convenções são estabelecidas para o nosso próprio bem.
Ao perceber que está agindo seguindo somente seus desejos e necessidades e se concluir que está tomando decisões impulsivamente, procure pensar melhor a respeito e refletir em possíveis implicações de agir assim, e se valerá a pena.
Ao notar que está constantemente exigindo demais de seu corpo e esquecendo de considerar sinais físicos básicos (como cansaço, dor, fome, calor, frio, sono, prazer), cuidado com uma autossabotagem, ou seja, a doença - quem não para por bem, parará por mal.


Aquele que viver só no plano mental, esquecendo de necessidades e de desejos do próprio corpo, ou perderá em humanidade ou em saúde; aquele que viver só no plano material, esquecendo de refletir e de valores espirituais, ou se tornará violento ou será vítima de si mesmo.

Qual você escolhe?! Será que precisa escolher?

domingo, 2 de março de 2014

Estrangeiro



La Liberté guidant le peuple, Eugène Delacroix

O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”. (Martin Luther King)


Tenho muita dificuldade em definir a mim mesmo o que é ético, o que não é; o que na verdade seria moral, ou imoral. Nunca sei plenamente se é correto responder a verdade diante de uma pergunta me feita. Imagino se a pessoa espera de fato a verdade. Não a sua verdade – a que quer ouvir, a que conforta os seus interesses, ou os da maioria, mas a que condiz com o que realmente penso. Nunca descobri o limite entre expôr de mais ou de menos; me expôr mais, ou me expôr menos... E me incomoda pensar sobre isso; me faz sentir diferente. Quem tenta sair do padrão e termina taxado.

O que me espanta mesmo é uma sensação de me sentir estrangeiro em terra natal. Observar como tomamos como certo coisas que são descaradamente erradas – conscientes. A questão é que se incomodar parece pior. O relativismo no político/social/corporativista garante maior sobrevivência. Quase uma legitimidade predatória. Relativamos tanto a verdade, a honra, a ética ao ponto delas se diluirem em meio aos nossos próprios interesses. Ser transparente virou sinônimo de não ser político. Falar a verdade tem hora. E ser honesto não combina numa negociação. É preciso ser calculista, ter cartas na manga, e “palavras flexíveis”. Não é permitido se colocar muito também (a menos que isso não desagrade ninguém).

Assim nos tornamos pessoas que respondem apenas o óbvio. Sorrimos simpáticos e parecemos íntimos de quem no fundo nem apreciamos. Aplacamos sonhos, vestimos máscaras e adentramos passivamente na roda, acompanhando o rebanho. E nos matamos um pouco por dia.
Para onde estamos indo? Quais perspectivas temos? Desconheço quais são os princípios e valores que conjugam esse momento atual. No passado existia verdadeiramente uma coisa chamada Palavra, que remetia à honra de um homem. Dois homens selavam um compromisso através de fios do bigode, mais nada. E por incrível que pareça bastava. Não eram necessários contratos, assinaturas, e nem testemunhas. Hoje se você fizer isso é logrado na certa. Um homem não sustenta mais sua afirmação, se algo por escrito, que leve sua assinatura, não o lembrar disso. Ou seja, um papel precisa lembrá-lo de que ele é um homem (no sentido ético da palavra). Mas o que é ética mesmo? Ah! Mas quem se importa?!

Eu me importo! Me incomodo. E me espanto diariamente. Nem acredito que tudo acontece debaixo do nosso nariz. Nossa educação em casa é frouxa, na escola alienada e na sociedade psicopática. Em casa educamos os filhos, não para serem sensíveis e inteligentes, mas para serem fortes e espertos (o que leva uma conotação bem diferente), não mostramos limites nem punimos maus atos. Na escola castramos qualquer senso crítico e sabotamos cidadania. E na sociedade aprende-se apenas os atalhos do curso, quem são os “cabeças” da pólis e como obter as armas necessárias. Onde estamos errando? - é o que me pergunto toda vez que ouço nos noticiários que uma criança cometeu um crime. Ou uma mãe abandonou o filho num hospital. Roubos, assassinatos, violência, delitos que, praticamente, têm nos obrigado a nos conformar com a realidade atual. Só que aquele que acomoda-se com essa realidade não pode reclamar de futuro, porque é conivente. Uma realidade como a de hoje, baseada em valores psicopáticos, só pôde se estabelecer tanto tempo tendo havido um conluio coletivo. Todos somos, de alguma forma, em maior ou menor grau, cúmplices! E isso deveria nos causar muita vergonha e nos incomodar bastante. E nem de longe isso é exagero.

Precisamos resgatar alguns valores antigos que, do meu ponto de vista, jamais deveriam se perder, independente do quão a sociedade avance. Honra. Fraternidade. Ética. Justiça. Coragem. Desabituarmos-nos dessa mania de ficar procurando muitas vezes razões para tentar justificar o injustificável. Ao invés disso, prestar mais atenção à formação das gerações. Pais atentarem-se em dar uma educação com mais limites e diálogo; professores uma educação que estimule a criatividade e a vontade de pensar e as pessoas de bem se unir, pois como bem diz a médica psiquiatra autora de diversos livros, Ana Beatriz Barbosa Silva, “o mal é muito unido!”.



domingo, 23 de fevereiro de 2014

ENERGIA X CONTEMPORANEIDADE



Toda mudança positiva - todo salto para um nível maior de energia e consciência - envolve um ritual de passagem. A cada subida para um degrau mais alto na escada da evolução pessoal, devemos atravessar um período de desconforto, de iniciação. Eu nunca conheci uma exceção.” (Dan Millman)


Tudo no mundo é feito de energia, inclusive nós mesmos. Quando acordamos, levantamos e fazemos as tarefas diárias somos movidos por energia. Quando falamos, quando brigamos, quando trabalhamos, quando comemos, até quando parados, tudo o que fazemos é impulsionado por energia. Acredito que a quantidade dela pode variar de uma pessoa para outra, mas o controle e a canalização dela fazem toda a diferença na manutenção de uma vida mais saudável, e eles só podem ser obtidos mediante consciência e reflexão sobre os próprios atos. Sobre essa energia. Mas a gente não a percebe; a gente nem se percebe.
A sociedade contemporânea globalizada, mesmo trazendo muitos benefícios à humanidade – benefícios materiais em grande parte –, tem prejudicado sorrateiramente o bom fluir dessa energia nas nossas vidas, o que tem gerado os grandes males da atualidade: ansiedade, pânico, impulsividade, obesidade, depressão, compulsões, e por aí vai.

A sociedade que vivemos é caracterizada por exigir de nós reações muito rápidas a estímulos que têm vindo muito rapidamente também, e isso impossibilita algo extremamente necessário para que não haja desperdício ou uma sobrecarga energética: a pausa para reflexão – ter a consciência dos nossos próprios atos, para avaliar consequências. O espaço entre as demandas externas que chegam diariamente e as respostas que precisamos dar está sendo cada vez mais curto; não tem dado tempo para que o pensamento racional entre em ação; ao invés disso reagimos impulsivamente automaticamente. A Dianética fala sobre isso como Mente Analítica e Mente Reativa. A Neurociência fala em Sequestro da Amígdala Cerebral. Seja o nome qual for, o princípio é o mesmo: ações sem a percepção do que está sendo feito, e por quê. É o caso do obeso – que as vezes nervoso, ansioso, triste – desconta na comida e não percebe a quantidade do que está ingerindo. Ou o compulsivo em compras que acaba se endividando facilmente. Ou aquele que por impulsividade age primeiro; fala, grita, prejudica-se, e depois se arrepende. Pessoas sobrecarregadas com estresse que não conseguem dar vazão às próprias demandas e acabam surtando. Pessoas se vitimizando por uma situação, quando são incapazes de perceber que os seus próprios atos culminaram para o acontecido. Não enxergam isso! Realmente não conseguem. Volto a repetir, porque até a nossa percepção da realidade está alterada. Para nós a realidade parece mais rápida do que o pensamento consegue acompanhar e até a nossa percepção de tempo está alterada; a gente percebe-se sempre com menos tempo do que o necessário, como se o tempo passasse mais depressa.

Toda essa problemática do meu ponto de vista começa já na fase escolar. Se disciplinamos nossas crianças e nossos adolescentes para reproduzirem conteúdos e não educamos para a criação de novos, se impomos a memorização de dados e não incentivamos uma reflexão sobre a realidade e um pensamento crítico, de que forma, mais tarde quando adultos nessa sociedade contemporânea, eles saberão responder às demandas? A resposta é que eles não saberão. Essa é a nossa problemática atual. Nós somos incapazes de pensar sobre a vida com um olhar amplo e um pensamento crítico; o que nós temos a oferecer são respostas prontas. Comportamentos irracionais. Mecânicos. Quando estamos com um problema nos angustiando, ao invés de refletirmos sobre esse incômodo, preferimos comprar, comer, beber, tudo para fugir da realidade. Quando precisamos ter atitude frente uma situação, ou reagimos impulsivamente e depois pensamos sobre o que fizemos, ou paralisamos e nada fazemos. Não tem meio termo. Não tem racionalização. É como a cobra que come o próprio rabo! 


Acredito que este problema atual é mais sério do que qualquer política pública conseguirá resolver facilmente. É um problema de estruturas psíquicas. Comportamentos muito enraizados. Eu acho que quisemos tanto um dia fabricar um cidadão pacato e passível de controle, como esse que vive na sociedade atual, e conseguimos! Vemos uma sociedade hoje imatura politicamente, que quando tenta revindicar alguma coisa termina extrapolando e gerando mais violência. Só que nós não podemos reclamar agora. O projeto não foi esse? Não queríamos uma massa assim? Se agora queremos mudar, se agora queremos uma sociedade forte, matura politicamente, precisamos mudar métodos! Fazer tudo o que deixamos de fazer até hoje. Oferecer uma educação de qualidade que atinja a todos com igualdade, e que privilegie a criatividade e o pensamento analítico. Dar suporte psicológico, médico, social. E por que não espiritual?! Demonstrar assim que a vida é mais do que tudo isso. Devemos fazer o que deveríamos ter feito. Do jeito certo. E isso vai demandar tempo. E resultados aparecerão a longo prazo. Será que podemos esperar? Só que quanto mais demoramos também, menos tempo temos...





" Ó, vós, na possessão de tão robustos intelectos... observai os ensinamentos que se escondem... sob o véu destes estranhos versos." (Dante Alighieri)


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Tempos modernos demais

 “A solidão é o preço que temos de pagar por termos nascido neste período moderno, tão cheio de liberdade, de independência e do nosso próprio egoísmo.” (Soseki Natsume)


Na minha infância chamar alguém de amigo demorava um tempo. O amigo em questão tinha de passar por testes, provas de lealdade e só com o tempo construía-se a amizade. Para considerarmos ele melhor amigo então era muito pior. Me lembro do receio que eu tinha de assumir que alguém era um grande amigo e no fundo não ser. Me incomodava essa mentira. Porque não era fácil assim. Hoje vejo pessoas que mal se conhecem e se intitulam “irmãos”. Fazem juras e trocam declarações. Não sei se acredito que isso seja amizade mesmo, porque as minhas referências foram outras.
Namoros eram bem mais demorados – demorava para começar porque tinha toda uma conquista a ser feita até pegar amizade, demoravam até virarem casamentos (quando viravam!), porque as famílias precisavam se conhecer a fundo, havia protocolos sociais a serem preenchidos, que ainda seriam avaliados. Os pais sempre tinham um olhar desconfiado de proteção. Sem falar que era comum um protocolo a mais. O noivado. Hoje quase não ouço mais essa palavra. Mesmo a palavra namoro quase não ouço. Substituídas por “pegar”, “ficar”, “curtir”. Isso nas relações sem compromisso. Em lances mais sérios: amigar. Nada contra casais amasiados. Um papel é só um papel, o que manda são os sentimentos. Mas eu falo de tempo. De preparo e amadurecimento até que as coisas possam acontecer naturalmente, e com firmeza!

Lembro que nas empresas a grande maioria dos empregados por exemplo eram antigos de casa. Não existia esse negócio de rotatividade de pessoal. Meus familiares e vizinhos diziam de boca cheia uns aos outros sobre aposentaria com carteira profissional de pouquíssimos registros. Muitas vezes um único emprego na vida! Hoje pego carteiras na mão e são continuação de uma primeira, e já não tem mais espaço para registrar – de pessoas mais jovens que eu! Não sou moralista. Nem nostálgico. Não parei no tempo. Nem quero retornar. Sou a favor de outros olhares, gosto de costumes diferentes e é preciso mesmo abrir-se a esses novos tempos. Mas me surpreende muito a velocidade que as coisas estão acontecendo. Por exemplo. Recentemente, conversando com um garoto de uns 19 anos sobre casamento e família, fiquei perplexo ao ouví-lo dizer seriamente que ele e sua namorada – que é menor – estão fazendo planos para o primeiro filho; eles se conhecem não tem um ano, não terminaram os estudos ainda, e moram com os pais. Se isso está normal, se é assim que as coisas devem acontecer, se sou eu o retrógrado, volto a repetir que as minhas referências foram outras.
Quando olho para trás e me lembro dos meus pais, dos meus vizinhos, da forma como a sociedade funcionava na época (e nem faz tanto tempo assim), revivo outro período literalmente. Sinto mudanças radicais. E me desculpem não é para melhor. Não nesse aspecto. Como disse Mario Sergio Cortella: Geração Miojo. Hoje tudo é instantâneo: amizades miojo, namoros miojo, trabalhos miojo, ascensão miojo...  Vidas miojo! Aí me pergunto: qual a qualidade nisso!? Qual o sabor de uma vida miojo? Ou o preço disso?

A sociedade atual, principalmente as gerações novas, está baseando-se unicamente em números, em quantidades ao invés de sustância e qualidade, e esse comportamento não tem precedente. Essa alta rotatividade de pessoas entrando e saindo de relações sem qualquer vínculo profundo e significativo, deixa um espaço vazio e uma sensação de solidão. E na tentativa de preencher esse espaço, vejo muitos jovens viciados num prazer encontrado em se arriscar em experiências novas: novos amigos, novos amores, novos desafios, novos empregos, novos estilos, novos gostos... Buscam se destacar de alguma forma na multidão e chamar a atenção para si mesmos e sempre buscando conquistar algo e se superarem. Mas não vivem as suas conquistas! Querem desafiar, alcançar status, conquistar o seu espaço, mas não para usufruí-lo! Aí o problema: ambições vazias. As tradições, as convenções, tudo o que é usual e atual é considerado sem graça. Obsoleto e desestimulante. E aí outro problema: intolerância com insatisfações. Resumindo. Uma geração ambiciosa, que tem se sentido vazia e que busca desafios como estímulos, mas que não tolera um não.

Sempre ouvimos frases como “o mundo antes era melhor”, e nós sempre julgamos estar vivendo tempos de coisas modernas demais e sem futuro. Só que agora é mesmo muito pior, o nosso inimigo é muito maior do que antes. Somos nós mesmos. Não estamos travando batalhas com outros, lá fora, estamos perdendo de nós mesmos. E muitos ainda dizem que ao pensarmos demais no futuro, ou lembrarmos demais do passado, a gente não vive o nosso presente. Numa alusão de que muito pensar implica em não viver. Mas esse tipo de filosofia que é danoso à vida. Devemos então viver sem pensar? Ou pensar muito pouco? Acredito plenamente no contrário. Quando a gente quer só viver de presente afim de curtir o momento, a gente acaba por comprometer o futuro. Uma coisa não dissocia da outra. É necessário aproveitar o presente sim, mas já projetando o futuro, pensar nos nossos atos e estar ciente que qualquer ação hoje desencadeará em algo amanhã. Estar preparado para essas consequências. E julgar se valerá a pena. O segredo está onde sempre esteve; na consciência do que estamos fazendo!


Você sabe o que você está fazendo? 


segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

VONTADE, FOCO E CONCENTRAÇÃO






"...o que vos falta é vontade."     
   O Livro dos Espíritos                                     


 

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

TODO MUNDO TEM O SEU



E o homem, em seu orgulho, criou Deus, a sua imagem e semelhança.” (Friedrich Nietzsche)


Todo mundo tem um lado negro. Aquela parte perversa que as vezes deixamos oculta até de nós mesmos e em raras ocasiões alcança a superfície. Uns admitem. Aprendem a controlar. Adocicam. Outros negam até a morte! São perfeitos demais para isso. Mentirosos até. Muitas vezes me perguntei como seria se as pessoas vissem umas às outras claramente, o que rolava no interior. Meu Deus! E se deixássemos transparecer e disséssemos abertamente uns aos outros o que pensamos e sentimos de forma direta? Eu só fico imaginando...
Quando estou com muita raiva de uma situação – ou de uma pessoa – que está me estressando, fico me perguntando como seria se todos ao meu redor lessem a minha mente naquele exato momento. No mínimo ficariam chocados! Eu fico a maquinar mil formas de fazer mil coisas. Mas pior seria se eu as colocassem em prática! Ia dar muito mais trabalho limpar a bagunça depois... rsrsrs'

Acho muito interessante isso, essa espécie de limite entre o que pode transparecer e o que não deve, o controle dessas nuances, e observo como essas “facetas ocultas” de forma indireta regulam as relações humanas. Não estou falando de politicagem. Muito menos de falsidade, ou omissão. É outra coisa. Porque ninguém precisa e nem deve ouvir os nossos pensamentos no trânsito. Ou numa fila de banco. Ninguém precisa saber francamente o que estamos pensando e sentindo no calor de uma discussão. Certamente que isso é o que evita uma Terceira Guerra Mundial! É esse tipo de controle que falo, que possibilita uma convivência pacífica entre as pessoas. Diplomacia. Algo que tenho aprendido e estou feliz por ver progresso. Existem muitas faces dessa parte obscura. Raiva. Ciúme. Ódio. Inveja. Ganância. Todos temos esse lado sombrio que fala só aos nossos ouvidos. Mas precisamos aceitá-lo. Saber quando e por que ele age. O que dispara o gatilho.

Por exemplo, no meu caso, o gatilho é o orgulho. Eu tenho um orgulho filho da mãe! E você nem imagina como me envergonha admitir isso. Posso estar na pior, mas dependendo da pessoa e da situação não cedo por nada! Cutucou aí, me revelo. Aí falo besteira. Faço besteira. E depois bate uma vergonha tamanha. Dói na consciência uma sensação de culpa quando dou campo a esse sentimento. Sei que quando ele age no fim me sinto pequeno. Ao invés de me sentir vitorioso saindo por cima numa discussão, me sinto na pior. Como um viciado que jurou nunca mais utilizar uma determinada droga e cedeu a tentação. Herdei esse bendito orgulho do meu pai, e ninguém conseguiria imaginar o duelo que era ter dois reis e um só trono em casa. Ninguém cedia. Éramos pior que crianças.

A medida que fui me conhecendo descobri que posso não ser assim “tão legal” quanto gostaria. Sou orgulhoso, tenho pensamentos baixos, tenho inveja dos outros, e até ódio de algumas pessoas. Me desculpe. Admitir isso não me faz melhor, nem pior do que ninguém, mas aceitar esse lado negro como algo natural da minha personalidade e preferir não fingir que não está acontecendo nada faz toda a diferença. Se eu aceito a minha inveja eu trabalho ela. Se eu aceito o meu ódio eu transformo ele. Hoje sei quando estou a um passo de ser cruel e tenho consciência de que a decisão de prosseguir é minha. Aprendi que mergulhar fundo na parte mais sombria da nossa personalidade nos ajuda a descobrir quem somos. E nem sempre essa passagem é fácil; muitas vezes traz grandes surpresas, e dolorosas mudanças. Mas vale a pena! Só conhecendo nossas limitações conhecemos nosso potencial. Quando somos capazes de identificar essas sombras, nós jogamos luz sobre elas, e ao fazermos isso alcançamos um caminho de autoconhecimento e amadurecimento, e com isso a chave para uma consciência mais tranquila. E certamente isso pode fazer uma grande diferença na vida de uma pessoa.


Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.” (Clarice Lispector)

domingo, 22 de dezembro de 2013

L'Ermite

Diogenes, Jean-Léon Gérôme.


Sobe a montanha e contempla a terra prometida, mas não digo que entrarás nela...”


Este foi um ano e tanto!
Se eu fosse resumir numa única palavra o que ele significou para mim, tenho certeza que usaria a palavra “Trabalho”. Foi um ano que trabalhei duro; diria que a tarefa interna foi ainda maior que a externa...
O autocontrole e a automotivação pautaram o ano. Ética, imparcialidade, arbitragem, e a resistência também! Gerenciar interesses é uma tarefa difícil e as vezes é preciso ser paciente; determinados acordos simplesmente acontecem no tempo deles. Não tem jeito.
Em muitos momentos do ano contei até dez. Onze! Cheguei no meu limite mesmo; mas estou feliz por ter conseguido me controlar e não ter metido os pés pelas mãos; não dar vazão ao impulso de outras épocas já foi um grande avanço. Em suma, me safei de várias. O saldo acabou não terminando negativo como estimado. Sorte.

Como todo ano conheci muitas pessoas e fiz algumas boas amizades. Me desfiz de antigas também – aprendi que tem laços que se esfacelam sozinhos... Vi pedras que reluziam e não eram ouro, e isso me ensinou a tomar mais cuidado com minhas próprias expectativas. Ouvi palavras suaves cortando como faca em manteiga! Máscaras caindo mesmo, e não é fácil pôr no lugar novamente. Entre o certo, o errado e a verdade, existe uma lacuna imensa. Com isso aprendi a observar de longe e deixar a cabo do tempo a missão de trazer a luz à certas questões. Daí entra o título e a tela escolhida deste post. O ermitão, do tarot e Diogenes, do pintor francês Jean-Léon Gérôme. Reza a lenda que, igualmente ao nono arcano maior, Diogenes perambulava pelas ruas como mendigo utilizando uma lamparina, à procura de um homem honrado.

Como um iniciado, seguirei ao futuro guiando-me pelo conhecimento e apoiado nessas experiências passadas. Seguir a 2014 tendo aprendido com este ano a observar de longe, atenta e pacientemente, os detalhes, e a guardar o silêncio comigo. Sinto que é um momento para me autodesenvolver. Me trabalhar mais. E intuo também que o próximo ano será complicado para todos bem por isso – de um ponto de vista existencial mesmo. Como observo esse movimento em mim, observo também em outras pessoas: uma vontade de autoconhecimento; um desejo de se autodesenvolverem. Já falei disso aqui; gastamos tempo demais investindo em descobertas externas e levantando estruturas, sem trabalhar conteúdos. Sem criar novos valores. Deixando de descobrir novas visões de mundo. E agora é o momento que precisamos mais dessa capacidade.

Por todos os cantos observo grandes transformações. As pessoas querem mudar. As empresas estão mudando. O mundo mudou. Diante desse cenário volátil acho que a única certeza que temos é a necessidade de experimentar o novo. De desbravar o desconhecido e reinventar antigos caminhos. Aceitando o diferente.
Aconselho a todos para investirem mais nessa parte interna em 2014. O pessoal. Busque ler mais, fazer cursos, terapias... Converse mais, viaje mais, reflita mais. Olhe com mais atenção para a um autoconhecimento voltado ao autodesenvolvimento. Pense fora da caixa. Descubra quais são os seus talentos, aquilo em você é muito bom, conheça-se melhor e experimente compartilhar isso. Talvez o mundo só esteja esperando isso de você! O mundo precisa de novas ideias, de novos valores, de novas perspectivas. E serão mãos coletivas nessa criação.

Como este ano estive muito focado no trabalho, postarei um vídeo que tem uma mensagem bem bacana – principalmente neste aspecto. E não só para 2014! Acho que o discurso do palestrante não só é muito interessante – e motivacional também – como é bastante importante. Apesar de ele não falar nada de muito inédito, são coisas que deixamos de pensar, mas precisamos muito; as questões tratadas por ele e a forma como elas são colocadas valem muito a pena uma reflexão. Convido então a assistirem ao vídeo e refletirem não apenas no contexto profissional, mas de uma maneira ampla. Porque nós, como sociedade, precisamos prestar atenção a essa transição de sociedade industrial para sociedade do conhecimento e no impacto disso em nossas relações uns com os outros e com nós mesmos.



Fonte: AQUI.


Desejo de coração a todos um

Feliz Natal e um Feliz Ano Novo!



terça-feira, 10 de dezembro de 2013

EQUILÍBRIO ESTÁTICO

De todas as formas de agir, uma que estou aprendendo bastante é o não-movimento. Optar por ele. Ouvir mais. Falar menos. Esperar. Procurar saber o momento certo de agir. É difícil... Demanda mais energia do que pensava.
Acreditamos que o silêncio é para os fracos; mas não é! Muitas vezes se calar e não fazer absolutamente nada dá um trabalho impressionante. Trabalho digno de muito preparo - físico e psicológico principalmente. E denota na minha opinião maturidade.

É comum acharmos que os corajosos são os que saem ao combate; aqueles que dizem sempre o que pensam; aqueles que não negam fogo pra ninguém. Mas de um tempo pra cá tenho aprendido bastante, e evitado muita dor de cabeça, só pelo fato de não fazer nada em certas circunstâncias. Deixar rolar. Não por medo! Nem por covardia. Simplesmente porque o não-movimento me pareceu mais sensato. Ou talvez fosse "o menos pior".
Estou aprendendo que algumas vezes não é vergonha nenhuma deixar a última palavra ao outro; sair de cena e não brigar com ele. Tenho visto que há brigas que não valem a pena: desgastam, machucam, atrasam mais, e o pior, nada resolvem. Em alguns momentos então deve ser preciso mesmo engolir sapos; baixar a guarda; tirar o time de campo. Numa boa.

Dependendo da profundidade de um corte, o próprio sangue estanca. Há estudos que dizem que um rio, como o Tietê por exemplo, se limparia sozinho se ninguém mais jogasse nada nele. Para certas ocasiões, o silêncio responde mais que uma palavra. O nosso próprio corpo é capaz de se curar sozinho de muitos males.
E se a gente for analisar de uma forma macro, tomando a nossa sociedade como exemplo, poderemos constatar como estamos apressados e porque a gente não consegue pensar antes de agir. Há uma gigantesca diferença entre um movimento consciente, onde sabemos o que estamos fazendo e as possíveis consequências, de um movimento qualquer. Tem gente que fala, fala, fala, e não se aproveita nada! Faz uma porção de coisas que atrapalham mais do que se não tivesse feito nada. A nossa sociedade hoje é bastante ignorante por conta disso. Queremos falar, mas não queremos ouvir. Queremos agir, mas não sabemos esperar. Queremos para ontem! Temos pressa, temos uma raiva incontrolável, temos grandes ambições, e vontades inadiáveis. Ninguém quer menos, nem pouco; queremos o melhor, e o mais rápido possível. Então quando o corpo responde com alguma dor, nos medicamos. Quando o nosso psicológico responde com alguma dor, nos entorpecemos. E quando alguém nos questiona, não gostamos. A gente quer falar, fazer e ouvir só o que quer!

Isso não lembra muito o comportamento típico de uma criança? Eu acho que sim. A nossa falta de autocontrole, falta de maturidade, falta de tolerância tem nos feito agir impulsivamente; muitas vezes metendo os pés pelas mãos. Falando demais; muitas vezes para quem não devia. Fazendo o que não faríamos em outras circunstâncias. Atropelando etapas! E colhendo frutos amargos com isso. Isso tem muito a ver também com esse "cenário crise" que criamos pra tudo. Crise no mundo dos negócios; crise ambiental; crise social; crise existencial... Hoje a palavra da moda é "Crise". E é óbvio, criamos os "solucionadores de crises": pessoas dinâmicas, que dão respostas rápidas aos problemas, são espertas, inovadoras e rápidas! E muitas vezes, comendo cru! Apressadas demais. Tão bom quanto agir no momento correto, é não agir no momento inadequado. Saber discernir. Estamos enfrentando dilemas sociais, ambientais, econômicos sérios, que precisam ser urgentemente solucionados sim, mas, urgência não significa também despreparo. Falta de planejamento e ações maduras. Acho importante um "fechamento pra balanço". Em outros momentos uma boa pausa, para deixar que as coisas sigam sem a nossa influência. Por que precisamos mediar todos os acontecimentos? Quem disse que a gente tinha esse poder??

Deixe rolar em algumas ocasiões. Faça o que for necessário ser feito, enquanto a situação permitir, e seja paciente com o que foge o seu controle. Tudo o que precisa é adquirir mais tolerância; nem só de impulso se conquistam as coisas, às vezes é preciso se conter.
O bom jogador não é aquele que sempre parte para o ataque, mas aquele que observa campo e oponente, e espera, para descobrir quando e onde atacar.

sábado, 23 de novembro de 2013

A PAPISA JOANA





"Um poema é um mistério cuja chave deve ser procurada pelo leitor." (Stéphane Mallarmé)


quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Somos Iguais


"Igualdade racial é pra valer", Petrobras:


"Professores, pesquisadores e outros especialistas destacam a importância da igualdade racial e discutem as origens da discriminação no país, além de reconhecer a contribuição da população afrodescendente na construção da sociedade brasileira."


"Ela renega a própria raça":


Jornalista Regina Volpato


"Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar." (Nelson Mandela)


Saiba mais: Dia Nacional da Consciência Negra.


sábado, 16 de novembro de 2013

Pensar, pensar e (re)pensar a Educação!


"A educação é um processo social, é desenvolvimento. Não é a preparação para a vida, é a própria vida. " (John Dewey)


Desde de muito pequeno sempre fui fascinado pelo tema Educação; sempre gostei de escola, e sempre estudei em escolas públicas também. Mas o engraçado, quando me lembro dessa época, é que vejo nitidamente um divisor de águas no meu próprio interesse, quando passei da infância à adolescência por exemplo. Durante o ensino infantil e o fundamental, lembro-me de gostar de fazer os trabalhos e as atividades e de discutir com os meus professores sobre diversos temas; eu sentia prazer em aprender naquele universo sempre móvel e instigador: ora era sala de aula; ora em sala de vídeo; ora íamos ao pátio, à grama, à biblioteca etc. Gostava muito pois não sentia desvinculação entre aquilo que aprendia no quadro negro e a minha vida fora da escola. O que ocorreu após esse período – durante o Ensino Médio – para ser mais exato ainda um pouco antes, a partir da oitava série – foi um certo desinteresse pela escola. Sempre fui inteligente e sempre gostei de estudar, mas não gostava "daquilo" (a forma como os conteúdos eram ministrados). Naquela época, mesmo de maneira muito superficial, pensando em termos de Educação, achava a escola distante. Não tinha conexão entre as disciplinas – pelo menos eu não sentia –. E o pior de tudo eram as cobranças; provas rigorosamente avaliadas (que nada avaliavam de fato) e aulas rigidamente monitoradas (que mesmo assim não nos seguravam); isso a jovens na puberdade, com absoluta certeza, é a forma mais incorreta para se trabalhar. Simplesmente não compreendem nessa linguagem.

E por que estou falando disso? Porque se hoje já concluí o Ensino Superior é porque em algum momento tive uma "iluminação de consciência" – vou chamar assim – e retomei um caminho abandonado – após ser reprovado no Ensino Médio! Quem lê essas linhas e observa o meu blog talvez deva supor que sou um alguém muito letrado, culto, até como se por alguma espécie de dom tivesse nascido assim ou que foi por toda vida um aluno "nota 10". Em primeiro lugar nem sou tão inteligente assim; sou curioso – o que para mim é diferente e até melhor. Em segundo, sempre gostei de estudar sim, mas isso não mudou em nada o fato de eu ser reprovado no Ensino Médio e de por alguns anos pensar que jamais pisaria numa instituição de ensino novamente. Por sorte (mesmo!) resolvi, num belo dia, matricular-me no EJA e concluir os estudos “básicos”. A que atribuo a reprova? Existiram “n” motivos na época, mas o principal deles, certamente, foi o incômodo que eu sentia em ter que ir à escola - então eu não ia; não via produtividade naquilo, tampouco sentia que seria útil para a minha vida. Então por que resolvi voltar? Existiram, também, “n” motivos na época, mas o principal deles, sinceramente, foi porque queria fazer uma faculdade e melhorar minha situação de vida. Busquei, basicamente, ascensão social e estabilidade financeira. Acho que ainda não as encontrei, mas... vamos adiante com o raciocínio... rs rs rs
Estou brincando um pouco, porém, infelizmente, essa é ainda hoje a realidade que observo em muitos adolescentes que conheço: eles não gostam de ir à escola, não veem muito sentido nela e estão considerando mais produtivo ir trabalhar do que ir estudar. Falo como profissional de recursos humanos, pois trabalho todo dia com essa realidade. E falando como cidadão: acho uma grande pena e uma vergonha para o nosso país. Estamos falhando com esses jovens! Jovens que não conseguem enxergar utilidade na escola, perdendo assim o interesse no aprendizado, no conhecimento.

Hoje, após todo o percurso que trilhei, afirmo categoricamente que estudar, adquirir conhecimentos variados, abrir a mente para novos olhares, aprender sobre outros costumes e outras culturas diferentes é extremante rico para o ser humano. Isso traz a ele noções de responsabilidade com a sociedade, respeito e tolerância com o outro e abertura para ideias diferentes; para a troca efetiva de cultura e vivências. Esse foi, e ainda é, o meu maior ganho com a Educação. E só pude constatar isso da pior maneira infelizmente: abandonando os estudos após ter sido reprovado e, depois de muito tempo, retomando apenas por questões financeiras. Não me culpo, porque graças a Deus voltei. Mas este não é o caminho; não precisamos chegar ao final de uma rua para descobrir que ela não tinha saída, se todos os sinais já não mostravam isso. Nós precisamos despertar nos nossos jovens (principalmente neles eu acho, porque o desinteresse maior parte deles) o entendimento da importância de frequentar a escola, de absorver conhecimento vivo e de colocar em prática no seu dia a dia esses conteúdos. Muito mais do que para ser um profissional requisitado no mercado. Muito mais do que para adquirir bens materiais. Muito mais do que para se obter um diploma universitário. Tudo isso para eles se transformarem em homens e mulheres melhores. Cidadãos conscientes, éticos, justos, humanos e solidários, que vão liderar a sociedade futura. Não é utopia, porque é possível! Utopia é algo praticamente improvável de acontecer, uma fantasia; mas isso não é um sonho impossível. Não devemos desacreditar nesses jovens, porque falhar com eles é falhar com toda a sociedade, onde igualmente todos pagaremos o preço por isso – preço que já estamos pagando! O negro, o branco, o índio, o rico, o pobre, na cidade ou no campo... Todos, sem exceção, têm o dever de colaborar com essa questão. Os pais em não permitir que seus filhos abandonem a escola e possibilitar que eles cheguem até ela; os governos em criarem políticas públicas melhores, mais condizentes com as realidades diversificadas desses jovens, e as empresas colaborarem com projetos que permitam que esses jovens não necessitem ter que abandonar seus estudos para frequentar o trabalho. E basta, de uma vez por todas, do discurso da “tarefa difícil”! Difícil todos sabemos que é. Sabemos que é um desafio, uma verdadeira transformação complicada, complexa, que demanda tempo e trabalho conjunto (PúblicoxPrivadoxSociedade). Mas sabemos também que é necessário abraçar essa causa, entendendo os impactos da falta de Educação e a relação com a violência, o trabalho infantil, as drogas, a marginalidade, no prejuízo que é para a sociedade como um todo; transformar a Educação é uma tarefa INESCAPÁVEL! - palavra muito bem dita por Celso João Ferretti, do Centro de Estudos em Educação e Sociedade. Adorei essa palavra.

Admito que as autoridades estão despertando para essa importância. Está se enxergando com olhos mais atentos e está havendo o conflito. O conflito é ótimo! A discussão, por mais que desencontrada, é ótima! Pelo menos enxergou-se o desafio! Se estamos chegando a algum lugar ou não, ou se chegaremos, ainda é cedo para nos respondermos. Mas já é um grande passo à frente existir um movimento para mudanças que vai ganhando forças. Estamos quebrando paradigmas, e é necessário quebrá-los.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

...



"I can't tell where the journey will end
But I know where to start"

 (AVICII Feat. Aloe Blacc)

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Vai com calma...



A atividade vence o frio; a inatividade vence o calor; assim, com a sua calma, vai o sábio corrigindo tudo no mundo. (Textos taoístas)


Nos momentos em que a vida parece não responder às minhas preces, sei que ela exige um pouco mais de mim. O que sinto nesses momentos é medo do que virá pela frente e uma grande insegurança: não ser capaz de dar conta do recado – porque a gente quer sempre corresponder às expectativas –. Aprendi que quando a vida fica assim, meio pacata, meio morosa, ela está observando atenta cada movimento, que precisa ser feito. Como se fosse uma mãe pássaro que empurra o filhote do ninho e espera que ele bata as asas.
Estou arriscando algumas posturas diferentes na minha vida e enfrentando firme algumas opiniões contrárias por conta disso. Tenho apostado todas as minhas fichas em onde isso vai dar. Acho que isso tem me tornado um pouco duro demais e tem horas que nem me reconheço, mas fiz as minhas opostas e espero a roleta girar e ver onde vai dar. Será que vai terminar a meu favor? Ninguém saberia responder ao certo e não ter respostas é o que aflige tanto.

Acordo todos os dias e saio para o quintal olhar para o céu pensando sobre como será o dia de amanhã e nunca encontro certeza alguma. É claro que tenho planos. Todo mundo tem os seus. E é óbvio que eu, um alguém todo racional e pé no chão incorrigível, teria uma meta a ser trilhada com protocolos rígidos, mas o fato é não sentir a vida conspirando ao meu favor – ou talvez testando-me até onde sou forte. Sinto os caminhos todos amarrados; sinto algumas pessoas atrapalhando ao invés de ajudar; as vezes sinto medo e muita raiva, como se de alguma forma eu estivesse enfrentando o mundo para atingir o que quero. E essa é uma sensação péssima! Então como sou orgulhoso e um tanto teimoso, ergo a cabeça e digo a mim mesmo que conseguirei superar os obstáculos custe o que custar (e fico tentando acreditar nisso) – sem deixar transparecer dúvidas e medo de tudo dar errado –.
Acho que o que me assusta tanto é ter que começar do zero se preciso; não sou muito bom para lidar com altos e baixos, as vezes me conforta a ideia de rotina e estabilidade – e sei que preciso aprender a me arriscar mais; mas arriscar significa admitir não se ter controle absoluto, e vivo imaginando que tenho...

Esse post deve estar com um ar enigmático ou talvez melancólico, mas a ideia central nem é essa; é apenas para refletirmos essa questão de que algumas vezes na vida temos raiva por não conseguirmos realizar as coisas do exato jeito que queremos e dá a impressão de que tudo ao nosso redor corrobora para desistirmos. A gente quer avançar e não consegue; a gente quer falar algumas coisas mas parece que ninguém da ouvidos; toda ação parece estar reprendida; e isso exige uma dose de paciência; de persistência; de calma...
Neste momento da vida quero dar início a novos projetos e tenho me arriscado, mas vejo a vida pedindo calma. Me segurando. Diante disso tenho exercitado a capacidade de compreender e respeitar esse sinal vermelho; no fundo eu sei que tudo tem o seu tempo de acontecer, que a vida tem mesmo uma ordem natural das coisas, mas na prática é muito difícil.

É preciso entender que a vida não dá garantia aos nossos sonhos, mas mesmo assim é necessário continuar a sonhá-los. Assumir que apesar de não termos o controle de todas as circunstâncias, precisamos mesmo assim persistir nelas. Quando as coisas ficarem difíceis demais, suportar. Quando parecerem não ter mais saída, ter calma. Mas olhando sempre para a vida com uma admiração constante; contemplando a beleza que se esconde em todos os cantos. Reverenciando a natureza e agradecendo-a, porque seja como for, estamos vivos. Aos momentos complicados, ouvir uma boa música nessas horas acalma. Observar com atenção uma paisagem nos ensina muito. E quando estivermos muito pessimistas, procurarmos acima de tudo ter fé na vida e descobrirmos assim dentro de nós a faísca de sabedoria criadora, de poder transformador. Em contato com essa nossa parte sagrada mudamos a vibração da nossa mente. E tudo, exatamente tudo, acredite, começa por aí.



terça-feira, 15 de outubro de 2013

CONHECIMENTO VIVO!


Mais ou menos com dez ou onze anos de idade comecei a frequentar a biblioteca da minha cidade em busca de respostas, queria entender certas coisas. Eu fui uma criança bastante curiosa, meus pais notavam isso; notavam que eu não era aquele típico garoto que gostava de trepar em árvores ou viver na rua brincando o dia inteiro; tampouco meu negócio era correr atrás de bola ou procurar fazer novas amizades pelo bairro. Eu era muito inteligente para a minha idade. E bastante estranho também. Era introvertido e solitário às vezes – e me sentia ainda mais sozinho pelo fato de me interessar por assuntos que não eram compartilhados pelos meus colegas. Sempre gostei de ciências, mistérios, esoterismo, ocultismo. Desde de pequeno me interesso por saber como o mundo funciona, quais forças regem a natureza, os elementos dela. Tinha algumas ideias estranhas para uma criança e gostos mais estranhos ainda.
Nessa época, quando comecei a frequentar mais assiduamente a biblioteca, minha seção preferida por exemplo era a esotérica. Aquela que ficava lá nos fundos, quase no escuro, onde poucos iam e que todos me olhavam curiosos quando me viam xeretando por lá. E lá eu ficava, se deixasse tardes inteiras, lendo sobre espiritismo, mitologia grega e romana, simbolismos, mistérios e magias do Homem – comecei por aí. Com o passar do tempo fui me interessando pela astrologia, pelos números, a numerologia – fiz meus mapas, e assim me encantando cada vez mais com essas “pseudociências”. Mais tarde, já na fase adulta, me interessei por quântica, neurociência, alquimia, até os dias de hoje, que tenho estudado bastante sobre a maçonaria. Eu não sou maçom, mas me interessa muito esse universo de auto desenvolvimento através do conhecimento, sempre me fascinou adquirir conhecimentos de culturas e civilizações antigas, buscar o aprimoramento a partir daí. Sou atraído por isso. Algumas pessoas me perguntam pelo que sou interessado e sempre respondo: por estudar! Estudar pessoas; culturas; o legado deixado por civilizações antigas. Eu gosto de viver a vida fora dos livros, mas sou apaixonado por estudá-los, sem sombra de dúvida o poder está no conhecimento, e é por isso que alguns povos são até os dias de hoje destinados à ignorância por seus governos – é mais seguro assim! Povo sem conhecimento, sem cultura, é povo fraco, passível de controle. Quem consegue controlar facilmente o esperto, o inteligente, aquele que conhece bem os seus direitos?

Através dos livros, desses estudos antigos, pude perceber que o povo em geral, em qualquer lugar do mundo ou época da História, sempre foi proibido de obter certos conhecimentos, porque seriam taxados de hereges pela Igreja ou perigosos pelos reis, e assim, através de um grande boicote a intelectualidade, as massas foram facilmente controladas pelas supremacias – sempre mancomunadas com a ala religiosa. Percebi que as civilizações antigas bem sucedidas, foram bem sucedidas porque permitiram a difusão livre do conhecimento entre a população, somado a abertura da mente a novas ideias, a uma religião sem dogmas e na forma como se relacionavam com a vida – como movimento constante sem princípio nem fim. Nem porquês. Sociedades antigas, principalmente as orientais, aprenderam equilibrar feminino e masculino (yin e yang) dentro do Homem e encontrar no Homem uma divindade. Com também encontrar na Divindade sua parte humana.
É fácil também perceber, através do estudo da História, como fomos manipulados através de nossos medos e através de nossas crenças a julgar o que é diferente. Hoje temos muito mais recursos e oportunidades que outrora e ainda somos manipulados e estamos dispersos. O grande mal do século na minha opinião é o excesso de tudo. Se no passado sofríamos porque éramos privados de conhecimento essencial, hoje temos tanto conhecimento que nos é difícil encontrar o que é essencial. Diante de tantas possibilidades, alternativas, caminhos, informações, não sabemos – e não queremos – escolher. A impressão que eu tenho é que hoje o truque é colocar na cara do Homem o que não se quer que ele veja. As sociedades secretas, como a Maçonaria por exemplo, nunca estiveram tão acessíveis e mesmo assim há diversas crendices. A própria ciência tem se rendido a religiosidade e as pessoas ainda estão se automedicando. A internet abriu um mar de infinitas informações e continuamos sem saber onde estamos e para onde vamos quando nos sentamos em frente a um computador. Esse é o Biopoder definido por Michel Foucault, apenas mudaram o cenário e o filme, mas o gênero e as personas ainda são os mesmos!

É preciso aprender a ler o mundo, a trabalhar com as novas tecnologias, entender que a ciência tem dando espaço à religiosidade, captar que governos estão modificando suas estruturas de poder e suas políticas públicas, mas a desigualdade e a exclusão social permanecem. Diante deste cenário novo e complexo precisamos mais do que nunca entender e trabalhar a complexidade. Desta vez o conhecimento é móvel e isso exige um pensamento crítico, isso exige um conhecimento vivo!